A inutilidade de conferir púlpito à estultícia, é rara perversidade, o ato de confrontar a ignorância solidifica-se, invariavelmente, em seu sine qua non de legitimação. O sábio que se inclina ao diálogo com o tolo não debate ideias — entrega, inadvertidamente, um troféu para a nulidade. Tal qual a réplica erudita ao insensato transforma-se em palanque para sua irrelevância, vestindo-o com as roupagens da autoridade.
A arena do debate, quando invadida pela prosápia do demagogo, transforma-se em circo. Cada réplica, por mais lapidar, é um assovio que alimenta as brasas de sua fogueira de sofismas; cada argumento, um ingresso vendido para seu show, o espetáculo do ridículo. O sábio, ao ceder ao impulso de corrigir o erro grosseiro, não esclarece — torna-se cenógrafo do teatro da irrelevância, levantando cortinas para um monólogo que jamais transcenderá a vacuidade. Lembremo-nos de que explicar o óbvio ao incapaz de compreendê-lo assemelha-se a lecionar física quântica a uma pedra, esforço sublime em vão, convertido em ludíbrio.
Aqui jaz a astúcia perversa da estultícia: Ela anseia por espectadores, não por interlocutores. O “Espectador” é, um observador passivo. Ele assiste, contempla, absorve, mas não interfere diretamente no fluxo da ação ou do discurso. É como alguém sentado na plateia de um teatro: Vê o espetáculo desenrolar-se diante de seus olhos, mas não pisa no palco, não altera o roteiro, não modifica a dinâmica da performance. Sua presença é silenciosa e sua influência sobre o evento é mínima ou nula. O espectador é, portanto, um consumidor de narrativas, um receptor de ideias, um testemunho externo ao processo. Já o “Interlocutor” é um participante ativo, um agente que se insere no diálogo, no debate ou na construção de significados. Ele não apenas ouve, mas responde; não apenas observa, mas interage. O interlocutor é coautor da conversa, alguém que traz suas próprias ideias, questionamentos e perspectivas para o espaço compartilhado do diálogo. Enquanto o espectador está fora da arena, o interlocutor está dentro dela, trocando golpes de argumentos, formando redes de pensamento e, muitas vezes, influenciando diretamente o rumo da discussão.
Ao replicar o idiota, ainda que com o fogo sagrado da lógica, o erudito desce da cátedra para pisar o solo pantanoso de seu adversário, onde a razão se enlama nos charcos da falácia. Não há vitória possível nessa dinâmica estéril, pois o insensato não almeja a verdade. Responder ao tolo é emprestar-lhe seu microfone; calar-se é reduzi-lo ao pó de si mesmo.
Que fique, pois, como Dogma: Engajar-se com a mediocridade é assinar-lhe uma procuração para falar em nome do seu tempo. O silêncio, nesse contexto, não é covardia, mas genialidade que transforma o murmúrio alheio em pó. Enquanto o tolo agita-se em sua coreografia de equívocos, o sábio observa, impávido, como quem contempla um temporal distante — consciente de que até a mais furiosa tempestade se pulveriza em si mesma, desde que não lhe ofereçamos as velas de nosso barco para inflar. Em última instância, a lição ecoa como um mantra rígido: “Não se derruba um castelo de areia soprando-o; ignora-se sua existência”. A autoridade nasce não da disputa, mas da quietude inabalável de quem sabe que certas batalhas, mesmo vencidas, são monumentos à esterilidade. Deixemos que os tolos levantem seus teatros. Enquanto isso, cultivemos um oásis interior — onde a sabedoria, em seu mutismo radiante, floresce longe e além do alcance dos aplausos.
Autor: Máquina Dourada