Máquina Dourada

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A Arte de Não Levar a Sério – Minimize para Desconstruir

O “poder do poder”, em sua dimensão simbólica, não tem sua efetividade apenas na materialidade do gesto, mas na composição intersubjetiva que lhe confere valoração. Certos constructos só adquirem potência quando consagrados pela seriedade ritualística do interlocutor. O deboche, a ironia, o silêncio estratégico, a minimização — estratagemas retóricos que operam como antídotos ao veneno da gravidade — são, assim, artimanhas basilares na desconstrução de hegemonias discursivas. Há muitas coisas cujo poder está, na verdade, no fato da outra pessoa levar aquilo a sério. É nesse contexto que entram, por exemplo, o deboche, a indiferença, a ironia, o humor, a minimização, o desvio de foco, a aceitação fingida e até o silêncio como formas de não tornar algo sério, os quais funcionam como estratégias para desqualificar a seriedade de algo e, assim, retirar-lhe o poder. Há situações em que algo só terá poder se você o levar a sério, mas se não o levar a sério, aquilo não terá poder contra você. O deboche, por exemplo, atua como uma reductio ad absurdum performática: Ao transformar o solene em caricatura, esvazia-lhe o núcleo conceitual, reduzindo-o a mísero espetáculo de gaivotas. A indiferença, por sua vez, é uma fortaleza impenetrável — um muro de negação passiva que nega ao adversário até mesmo o direito ao confronto. Já o humor, em sua sagacidade dionisíaca, subverte hierarquias ao expor o ridículo inerente a toda pretensão de infalibilidade. Aqui, surge a figura do ars neglegentia — a arte de negar pelo desvio, de aniquilar pela recusa em conceder relevo. O silêncio se transforma em ato discursivo de anulação: Ao negar a palavra ao outro, nega-se a validade mesma de seu enunciado. A aceitação fingida, por outro lado, é um jogo que ao simular concordância, evapora-se a seriedade do argumento alheio, expondo sua fragilidade através do exagero mimético, aumenta-se até a acidez no estômago da vítima. O poder se assemelha a um fogo-fátuo, só arde se houver combustível na mente de quem o observa. A minimização, como técnica de desinflação semântica, opera pela via da relativização — “isso não passa de…”, “apenas um…”, “meramente…”. Cada qualificação é um golpe de bisturi na grandiloquência alheia, desmontando torres de abstração em tijolos. Eis a lição: O poder é, em última instância, uma co-criação. Requer a cumplicidade tácita de quem o legitima. Aquele que domina a arte de não levar a sério — seja pela ironia estoica, pelo desvio taoista ou pelo riso nietzschiano — torna-se um mago do império das palavras, transformando coroas em papel. Na economia das emoções, a recusa em conceder seriedade é a mais subtil das revoltas: Uma insurreição silenciosa que desarma tiranos ao privá-los do próprio oxigênio de sua autoridade — o temor reverencial. Assim, o sábio — armado de cepticismo e leveza — navega como um argonauta do equívoco, pois sabe que muitas vezes a vitória está na recusa em travar o combate que o outro tanto almeja. In fine, o mais elevado poder talvez seja aquele que se nega a ser enredado nos jogos alheios, preservando-se intocado.

Autor: Máquina Dourada