Na selva aquática, os tubarões reinam com mandíbulas afiadas, a sobrevivência exige mais do que simples força bruta. A liturgia das profundezas é um complexo entrelaçamento de estratégias e adaptações que superam o físico. Aqui, a fraqueza é um sinal de vulnerabilidade, um convite aberto aos vorazes habitantes do mar.
Para nadar impávido em meio a esses predadores, é necessário mascarar as próprias fragilidades, ocultando-as sob escamas de espinho. Transformar o plasma em âmbar, translúcido e inodoro, torna-se uma necessidade, uma maneira de tornar-se inacessível à química da gulodice que impulsiona o apetite dos monstros marinhos.
Se tornar intangível, um fantasma que escapa das mandíbulas famintas, é uma arte nesse mundo hostil. Fotossintetizar o próprio rubor, como se fosse uma folha verde flutuando em um cardume carniceral, é uma maneira de não exalar feromônios que atraem os necrófagos aquáticos. Se quiser nadar entre tubarões não sangre.
A espiral dourada da concha, que protege o molusco, é um exemplo de como o cálculo fractal das próprias pausas pode blindar contra o raio de ação das maxilas vorazes. A cicuta que se carrega consigo está na ausência de exsudações, não no suco, uma lição sobre a botânica do perigo e a necessidade de raízes não-hemáticas.
Quando Netuno conjura a constelação dos Carcharhinídeos, é crucial navegar por ascensões retas, evitando-se as marés feridas que atrairiam a atenção indesejada. No reino seláquio, a epiderme lisa e impenetrável é um antídoto contra o instinto predador e o ferimento.
No idioma dos predadores, o verbo “sangrar” está no imperativo passivo. Reescreva sua sintaxe em modo optativo, fazendo com que o desejo dos predadores seja apenas subjuntivo.
Observar-se sem ser observado, seguir este princípio que protege os discretos, é uma maneira de habitar a ausência, um nicho vazio que não é colonizado pelos decompositores que ignoram espaços sem matéria orgânica em decomposição. A fenomenologia do invisível ensina que existir sem fenomenalizar-se é a suprema arte, uma lição sobre o poder do conhecimento e a fortaleza de ser desconhecido. Mitos não sangram, apenas assombram.
Como o náutilo, secretar uma concha de madrepérola, uma beleza fria e dura que repele os biólogos de dentes afiados, é uma maneira de proteger-se. O sangramento é um relógio que marca o tempo da vulnerabilidade, mas congelar seus ponteiros é uma maneira de escapar da voracidade do tempo, de tornar-se uma eternidade que não pode ser devorada.
Autor: Máquina Dourada