A preponderância do desenlace final exerce influência determinante na reconfiguração da valoração pretérita, subvertendo a percepção alheia acerca dos estágios iniciais e intermediários de qualquer empreitada. Um epílogo triunfante, ainda que precedido por uma trajetória marcada por mediocridade ou inconsistência, tende a aureolar de legitimidade retrospectiva cada passo anterior, invertendo vacilações em astúcias preparatórias e fragilidades em lições indispensáveis. O júbilo da conquista, ao eclipsar as imperfeições do processo, engendra uma narrativa coerente e redentora, na qual os equívocos são sublimados pela magnitude do êxito — como se a culminância gloriosa, em seu esplendor, pudesse redimir e reordenar o caos constitutivo do caminho, conferindo-lhe a posteriori uma teleologia inexorável. Da teleologia mnemônica, o Édipo do desfecho na reconfiguração substancial do processo, a dialética entre o télos e a arché constitui-se como um segredo na economia da razão narrativa. Se o devir é, por natureza, uma sucessão de atos contingentes, por que a mente humana insiste em atribuir ao último ato o poder de ressignificar a totalidade do percurso? Tal questão, longe de ser exercício retórico, toca o cerne da metafísica aristotélica, na qual a causa final (hou heneka) não apenas coroa a cadeia causal, mas a transcende, conferindo unidade ao múltiplo.
Em contrapartida, um término adverso, mesmo quando precedido por esforços metódicos e méritos incontestáveis, impregna o olhar retrospectivo de um viés condenatório. A derrota, em sua implacabilidade, projeta uma suspeição sobre o passado, convertendo prudência em pusilanimidade e acertos em acasos. A decepção do resultado final corrompe a memória coletiva, reduzindo a complexidade do percurso a um epítome de equívocos, como se o fracasso, em sua crueza terminal, desvelasse uma suposta falha de todas as etapas anteriores — ainda que estas, em sua concretude, tenham sido pautadas por excelência e engenho. Nessa metamorfose retroativa, o êxito é uma causa sui do processo quando o desfecho se reveste de glória, opera-se um anomalia basilar: o objetivo se torna uma gênese retrospectiva. A culminância vitoriosa, ainda que emergindo de um caos de hesitações, reescreve a genealogia do processo. As falhas, outrora testemunhas da fragilidade humana, transmutam-se em prolepses necessárias — como se cada tropeço fosse um mechane divino conspirado para o ápice triunfal.
Tal dinâmica expõe a vulnerabilidade da razão humana ante a tirania do último ato. A mente, ávida por sínteses ordenadas, rende-se à sedução da teleologia, reinterpretando o contingente como necessário e o acidental como premeditado. O triunfo erige-se em mito unificador, enquanto o revés degenera em alegoria do desastre anunciado. Ambos os polos revelam a fratura entre o vivido e o rememorado: entre a materialidade das ações — com suas nuances e contradições — e a plasticidade de seu significado quando submetido ao crivo da emotividade pós-facto. Na Poética, Aristóteles já observara que o reconhecimento (anagnórisis) e a peripécia (peripeteia) no último ato determinam a catarse (kátharsis). Analogamente, na esfera prática, o êxito final funciona como anagnórisis coletiva, revelando uma suposta “intencionalidade oculta” nos eventos anteriores. A phrónesis aparentemente ausente nos estágios iniciais é projetada a posteriori, transformando acasos em estratagemas e fragilidades em pedagogias.
Há na hamartía terminal, quando o fracasso condena a prática, um contraponto inexorável, o desastre conclusivo invoca a nemesis retroativa. Mesmo ações pautadas pela excelência são reinterpretadas pelo descomedimento, como se o fracasso desvelasse uma culpa originária. A mente, ávida por causalidades lineares, transforma a complexidade do real em tragédia edípica: o fim adverso torna-se prova ex post facto de um erro inaugural não detectado. Nesse jogo, o desfecho não apenas encerra, mas reescreve; não apenas conclui, mas reconstrói. Sua força simbólica é tal que consegue alterar a realidade mesma do processo, elevando-o à categoria de epopeia ou rebaixando-o à condição de farsa, conforme o veredito final. Diante desse paradoxo — no qual o todo é julgado pela parte derradeira —, impõe-se ao espírito crítico a tarefa de desconstruir a ilusão retrospectiva, restituindo a cada fase sua autonomia e reconhecendo o valor de uma jornada não em seu término, mas na densidade ética e estética de cada instante que a compôs.
O desfecho na memória coletiva e individual constitui um fenômeno de complexidade epistemológica, no qual o êxito ou o fracasso finais operam como prismas retroativos, reconfigurando a valoração atribuída às etapas precedentes. A culminância vitoriosa, ainda que precedida por fases medíocres ou erráticas, tende a irradiar uma aura de legitimidade sobre todo o processo, transfigurando hesitações em prelúdios estratégicos e fragilidades em aprendizagens necessárias. A euforia do triunfo, ao saturar o imaginário, promove uma retrospectiva benevolente, na qual os equívocos são atenuados pela glória conclusiva, como se a vitória, em sua magnitude, conferisse a posteriori uma lógica inexorável ao caos primordial.
Por outro lado, a derrocada final, ainda que precedida por esforços meticulosos e méritos incontestáveis, suscita uma hermenêutica punitiva. O fracasso, em sua crueza, lança um fantasma retroativo que contamina a percepção dos estágios iniciais e intermediários, convertendo diligências em ingenuidades e acertos em acidentes felizes. A decepção do término impregna o passado de um viés reducionista, no qual a excelência parcial é obliterada pela desilusão global, como se a derrota, em seu peso categórico, reescrevesse a narrativa anterior sob o signo da falência iminente. Aqui, a ateleia (incompletude) do processo corrompe até mesmo as energeiai (atividades perfeitas) anteriores. O general que perde a batalha final tem suas vitórias táticas reduzidas a tyche (sorte), enquanto suas derrotas parciais são elevadas a heimarméne (destino inevitável). A opinião coletiva, sob o jugo do resultado, renega o conhecimento acumulado, preferindo a simplicidade enganosa da teleologia inversa.
Essa interação entre resultado e reinterpretação revela a fragilidade da racionalidade humana ante a tirania do desfecho. A mente, ávida por coerência, submete-se à sedução da teleologia, atribuindo intencionalidade e mérito onde antes havia apenas contingência. O êxito converte-se em mito unificador; o fracasso, em alegoria do desvio. Ambos os casos expõem a tensão entre o factual e o percebido, entre a materialidade das ações e a elasticidade de seu significado quando filtradas pelo crivo do tempo e do emocional. A Ilusão da Synolon: “A Tirania do Todo sobre as Partes” Fenômeno este que expõe a tensão entre o synolon (todo) e os meré (partes) na gnoseologia humana. Enquanto a phýsis opera por entelecheia — atualizando potências de modo orgânico —, a psykhé humana busca imposições violentas de totalidade. O último ato funciona como eidos (forma) que subjuga a hylé (matéria) do processo, forjando uma unidade fictícia.
Na Metafísica, Aristóteles adverte que “o todo é mais que a soma das partes” (1045a 8-10). Contudo, na esfera mnemônica, o todo torna-se tirano: suprime a autonomia das partes, coagindo-as a servir a uma narrativa unívoca. A vitória final é elevada a prôtè ousía (substância primeira), enquanto os estágios precedentes são reduzidos a symbebekóta (acidentes) subordinados. A solução aristotélica residiria na eudaimonia como anti-teleologia para além do último ato, a felicidade como energeia kat’ aretén (atividade conforme a excelência), não como simples fim, mas como praxis contínua. Se o florescimento humano é uma entelecheia sem término fixo, então cada ato — não apenas o último — carrega dignidade intrínseca. O sábio (sophós), imune à tirania do desfecho, exercita a theória (contemplação) desinteressada: avalia cada fase pela mesótès (mediania) ética de seus atos, não pelo resultado contingente. Assim como o Primeiro Motor Aristotélico move por atração (kinèsei hôs erómenon), sem se corromper pelo devir, o homem maduro preserva a integridade de seu érgon (trabalho) mesmo ante resultados adversos.
Assim, o epílogo não apenas encerra, mas redefine a história. Sua força simbólica é tal que consegue transfigurar a identidade do percurso, elevando-o ou condenando-o à posteridade conforme seu último ato. Nessa dinâmica, a história, embora construída passo a passo, é julgada em bloco, submetida à tirania do último capítulo. Cabe, pois, ao observador lúcido, desvencilhar-se da fascinação pelo desfecho e restaurar, na análise, a autonomia digna de cada fase — reconhecendo que a grandeza ou a pequenez de um trajeto não está apenas no seu término, mas na integridade de sua execução.
A percepção humana, poderosa, mas também elaborada nos carretéis da linguagem e da emoção, é tão volátil quanto um sopro na areia, desfaz-se ao sabor do vento. Alterar o modo como alguém enxerga o mundo é exercício trivial para quem domina a retórica das manipulações, a arte de projetar utopias na “Caverna Platônica”. Um discurso ardiloso, uma narrativa bem costurada ou mesmo o silêncio estratégico podem transfigurar realidades, convertendo verdades em devaneios e devaneios em dogmas. Contudo, essa mutabilidade cognitiva, embora poderosa, é filha da superficialidade.
É mais fácil, para benefício próprio, alterar a percepção de alguém, contudo, é mais elevado reverter a percepção equivocada, ou melhor, reverter os danos. Reverter os danos, porém, transcende a manipulação de aparências. Mergulhar nas profundezas abissais onde estão as raízes do erro, enfrentar a Medusa do arrependimento sem desviar o olhar. Exige do homem — no sentido arcaico e nobre da palavra — a coragem de assumir a autoria do caos que semeou, ainda que involuntariamente. Não se trata de esculpir novas miragens, mas de reconstruir com as próprias mãos, tijolo por tijolo, o edifício abalado da confiança, da integridade, da dignidade alheia. Aqui, fracassam os prestidigitadores da persuasão: suas metáforas douradas não cicatrizam feridas, suas elocuções brilhantes não restauram o que foi quebrado.
A história nos lega exemplos desse dilema entre o fácil e o árduo. Ulisses, o astucioso, enganou ciclopes e desfez nós matrimoniais com sua lábia divina, mas foi apenas ao enfrentar as tormentas de Poseidon — nu em sua humanidade trêmula — que alcançou a estatura de herói. Da mesma forma, os grandes redentores das narrativas sagradas não são os que alteraram percepções com milagres espetaculares, mas os que carregaram nos ombros o fardo do sofrimento alheio, gota a gota, até transubstanciá-lo em graça.
Nesse interregno entre o erro e a reparação, nasce a anatomia da maturidade. Enquanto o manipulador cultiva jardins de falsas impressões, o grande homem semeia árvores de ações concretas, cujas raízes penetram o subsolo da história pessoal. Não por acaso, nas mitologias fundadoras, o fogo prometéico roubado aos deuses não foi a chama da persuasão, mas a do trabalho transformador — suor e labuta como antídotos contra a queda.
A Anámnesis é uma resistência à teleologia. Resta à filosofia a tarefa socrática de anámnesis (reminiscência): descobrir, sob a narrativa teleológica imposta pelo último ato, a real aletheia (desvelamento) do processo. Cada etapa, em sua singularidade hic et nunc, merece julgamento imanente — não pelo que virá a ser, mas pelo que é em sua enérgeia própria. Assim, o exercício da Sophía consiste em honrar a poíesis (criação) em sua jornada, não em seu porto. Pois, como ensina Aristóteles, “a natureza não faz nada em vão” (Phys. 199a 20), mas tampouco submete seus processos à ditadura dos fins humanos. Resta ao homem, em sua finitude, cultivar a megalopsychía (grandeza de alma) que valoriza o caminho tanto quanto o destino — ou melhor, que reconhece no caminho bem trilhado o único destino digno de um ser racional.
Assim, a máxima encerra em si uma cosmogonia moral: se o poder de distorcer percepções nos iguala aos deuses caprichosos do Olimpo, a capacidade de reparar danos nos eleva à condição de divindades terrenas — frágeis, falíveis, mas infinitamente responsáveis por cada fissura que nossos passos deixam no mundo.
Autor: Máquina Dourada