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A Fidelidade

Dentre os objetos de estudo, alguns são mais estimáveis que outros, seja por sua nobreza intrínseca, seja pela sublimidade do que investigam, situaríamos a indagação acerca da fidelidade ao próprio ser entre as mais elevadas. Pois esta envolve, necessariamente, uma investigação da natureza mesma do homem, e de que modo este deve comportar-se relativamente às suas potencialidades e à sua forma. Compreender tal questão contribui grandemente para o estudo da vida excelente e para a investigação da natureza humana, porquanto a fidelidade a si mesmo é como que o princípio das ações virtuosas.

Porém, é por todos os modos e sob todos os aspectos dificílimo chegar a uma convicção acerca dela, pois, sendo a fidelidade um termo que admite muitos significados, é forçoso determinar o sentido peculiar em que deve ser entendida em relação ao si-mesmo. Deve-se investigar também se esta fidelidade pertence à substância do homem ou é antes uma disposição adquirida, e ainda se é una e indivisível ou se admite partes. E ademais, é mister indagar se é dirigida à atualidade presente do ser ou à sua potencialidade futura.

Digamos, pois, tomando isto como princípio da investigação, que a autenticidade distingue-se da inautenticidade pelo atuar conforme a natureza própria. Mas como o atuar pode ser descrito de muitos modos, afirmamos que um ser é autêntico se encerra em si, ao menos, estas faculdades: deliberar segundo princípios internos, resistir às pressões extrínsecas contrárias à sua essência e mover-se em direção à sua própria perfeição.

Em tempos de passageiras aquiescências e pródigos consentimentos ao arbítrio alheio, impõe-se, qual axioma inarredável, o imperativo categórico da lealdade à própria essência. Eis o aforismo que, em sua aparente simplicidade, encerra uma profundidade hermenêutica digna de escrutínio meticuloso e elucubração acurada. Para, com excelência, ser fiel ao outro, é de grande importância ser fiel consigo mesmo. A fidelidade a si mesmo é, portanto, enteléquia primeira de um ser naturalmente inclinado à autorreflexão. E como a enteléquia se diz em dois sentidos – num como ciência, noutro como exercício atual da ciência – é claro que a fidelidade a si mesmo é enteléquia enquanto ciência; pois ao haver a fidelidade, existe tanto a possibilidade de agir conforme a natureza própria quanto sua efetivação, sendo a primeira análoga ao ter ciência e a segunda ao exercê-la. Donde a fidelidade a si mesmo é a enteléquia primeira de um ser capaz de autodeterminação.

Não é correto, porém, afirmar, como fazem alguns, que a fidelidade a si é mera obstinação ou contumácia no próprio parecer. Pois se tal fosse, também os irracionais, quando perseveram em seus impulsos, seriam fiéis a si mesmos, o que manifestamente não sucede. Percebe-se, pois, que a autenticidade não está no perseverar indiscriminado, mas no perseverar naquilo que constitui a essência superior do homem.

Consideremos agora as faculdades da alma em sua relação com a fidelidade a si mesmo. No que tange à faculdade nutritiva, é manifesto que não basta ao homem satisfazê-la para ser considerado fiel a si mesmo, pois tal faculdade ele compartilha com as plantas e todos os seres viventes. Tampouco seria suficiente a conformidade com a faculdade sensitiva, posto que esta também pertence aos animais irracionais.

É principalmente em relação à faculdade intelectiva que deve ser pensada a questão da fidelidade a si mesmo, porquanto o intelecto é, no homem, o elemento mais excelente e aquele pelo qual propriamente se define. No entanto, não se pode negligenciar a participação das demais faculdades nesta questão, pois o homem é composto e não forma simples. Donde a fidelidade a si mesmo envolver também certa proporção harmônica entre as distintas potências da alma.

Quanto aos objetos externos, podemos afirmar, com acerto, que não é por serem externos que se opõem à autenticidade, mas por se introduzirem na alma de modo diverso à sua proporção natural. Pois assim como a visão é corrompida tanto pelo excesso quanto pela carência de luz, também a alma o é quando as influências externas excedem ou falham em relação à justa medida. Eis por que dizemos: “Seja fiel a si mesmo”, significando não a recusa absoluta das influências alheias, mas sua subordinação à forma própria do ser.

Há, porém, certos impedimentos que obstam a realização da fidelidade a si mesmo, os quais cumpre examinar. O primeiro e mais conspícuo é a ignorância de si, pois aquele que desconhece sua própria natureza não poderá lhe ser fiel, assim como não se conforma à saúde quem ignora o que esta seja. Outro impedimento relevante é o temor da opinião alheia, que opera na alma como certo entrave à manifestação do ser próprio.

Também o hábito contraria, por vezes, a fidelidade a si mesmo, porquanto sendo uma segunda natureza, pode sobrepor-se à natureza primária e genuína. Donde se compreende que muitos homens, tendo-se habituado a agir contra sua natureza, encontram dificuldade em retornar à autenticidade, à semelhança do que ocorre com a água, que, sendo naturalmente fria, uma vez aquecida, não retorna imediatamente ao seu estado primário.

Ademais, a confusão entre os fins – quando se toma o meio por fim ou o fim de outro por fim próprio – constitui obstáculo significativo à fidelidade a si mesmo. Pois aquele que serve a um fim alheio à sua natureza, necessariamente se afasta do que lhe é mais próprio, à maneira de um músico que, utilizando seu instrumento para golpear, corrompe tanto a função do instrumento quanto a arte musical.

Mas aqui surge uma questão digna de análise: como discernir entre o que pertence à natureza própria e o que lhe é alheio? Pois se observarmos os homens, veremos que muitas das coisas que consideram próprias lhes são, de fato, impostas por influência externa; e, inversamente, muitas coisas que rejeitam como alheias são-lhes naturalmente adequadas.

Diremos, pois, que é próprio de cada homem aquilo que aperfeiçoa sua forma específica e que contribui para a realização de sua função peculiar. Assim como o olho tem por função ver, e vê bem quando atualiza esta potência em sua excelência, também o homem tem por função o viver racional, e vive bem quando o faz conforme à virtude. Logo, é fiel a si mesmo aquele que vive segundo as determinações de sua razão devidamente orientada.

Emerge daí uma consequência notável: ser fiel a si mesmo não significa anuir a qualquer impulso ou inclinação, mas somente àqueles que se coadunam com a natureza racional. Donde se compreende o paradoxo apenas aparente de que, por vezes, ser fiel a si mesmo implica contrariar certas tendências internas, quando estas se opõem à racionalidade que constitui a natureza humana.

Consideremos ainda a relação entre a fidelidade a si mesmo e a perfectibilidade inerente ao ser humano. Pois todo homem é, por natureza, um composto de ato e potência, sendo em ato aquilo que já realizou de suas capacidades, e em potência o que ainda pode vir a ser. Segue-se, pois, que ser fiel a si mesmo envolve não apenas a conformidade com o que já se é atualmente, mas também a abertura às potencialidades ainda não concretizadas.

Neste ponto, distingue-se claramente a verdadeira fidelidade a si mesmo da simples obstinação em permanecer idêntico: enquanto esta recusa qualquer movimento de autotranscendência, aquela reconhece na mutação direcionada à perfeição uma exigência da própria natureza. É como se dá com a semente, que somente é fiel à sua essência quando abandona a forma de semente para assumir a de planta, posto que a segunda constitui a perfeição da primeira.

Finalmente, investiguemos qual o fim a que se ordena a fidelidade a si mesmo. Pois conforme estabelecido anteriormente, todo movimento natural dirige-se a um fim determinado, e é por este fim que se mede a excelência do movimento. Diremos, pois, que a fidelidade a si mesmo tem por fim a eudaimonia, ou vida feliz, entendida como atividade da alma conforme à virtude.

De fato, sendo a felicidade o fim último a que naturalmente aspira todo homem, e sendo possível alcançá-la apenas mediante a atualização excelente das potências que constituem a natureza humana, conclui-se que somente sendo fiel a si mesmo pode o homem atingir seu télos próprio. Donde a conhecida máxima poder ser compreendida como um imperativo de busca da excelência própria, e não como uma exortação ao individualismo desmedido.

Fica estabelecido, portanto, que a fidelidade a si mesmo é uma disposição pela qual o homem atua conforme sua natureza própria, subordinando as influências externas à forma que lhe é peculiar e direcionando-se à perfeição de suas potências naturais. Não se confunde com a obstinação, que recusa o aperfeiçoamento, nem com a subserviência, que abdica da autodeterminação, sendo antes uma via média que, partindo do autoconhecimento, conduz à atuação excelente.

E uma vez que o bem de cada ser está na realização plena de sua forma específica, ser fiel a si mesmo constitui, para o homem, não apenas um imperativo existencial, mas a condição mesma de sua eudaimonia. Assim, ser fiel, não significa o repúdio absoluto às influências externas, mas sua integração harmônica na economia da própria natureza, de modo que cada homem, sendo maximamente si próprio, seja também maximamente homem.

A genuflexão perante o altar da opinião alheia constitui, não raro, o mais insidioso dos solipsismos existenciais. Aquele que se transmuta em camaleão social, assumindo as colorações axiológicas do entorno, incorre na mais perniciosa das alienações: o exílio de si mesmo. Tal atitude, eivada de pussilanimidade ontológica, conduz o ser ao limbo da inautenticidade, onde vaga como espectro de potencialidades jamais concretizadas.

O insigne filósofo dinamarquês, Søren Kierkegaard, em sua magistral sabedoria, já advertia sobre os perigos da dissolução do indivíduo na massa amorfa da coletividade. Para este pensador, a verdadeira transcendência humana está precisamente no ato de tornar-se si-mesmo, numa odisseia inexorável rumo ao centro veraz de sua ipseidade. Destarte, a fidelidade à própria consciência não configura simples capricho egotístico, senão imperativo ético de primeira grandeza.

Ao perscrutar os meandros desta questão, deparamo-nos com o paradoxo da identidade na alteridade. A autenticidade não pressupõe o solipsismo hermético, tampouco a negação peremptória do outro. Ao revés, é na dialética entre o eu e o não-eu que se forja a identidade verdadeira. Contudo, esta relação dialógica só se estabelece em bases profícuas quando o sujeito, munido de autonomia axiológica, não sucumbe à tentação da mimese acrítica dos valores alienígenas à sua constituição existencial.

O vocábulo “fidelidade”, em sua etimologia primeva, remonta ao latim “fidelitas”, que por sua vez deriva de “fides” – fé, confiança. Ser fiel a si próprio implica, pois, um ato de fé na própria singularidade, uma confiança inabalável no valor intrínseco da subjetividade idiossincrática que nos constitui. Trata-se, em última instância, de um pacto fundamental consigo mesmo, um juramento solene perante o tribunal da própria consciência.

A história nos brinda com exemplos fulgurantes de espíritos que, em sua obstinada fidelidade a si mesmos, legaram à humanidade os mais sublimes testemunhos de grandeza moral. Sócrates, ao preferir a cicuta à apostasia filosófica; Giordano Bruno, abraçando a pira inquisitorial em nome da verdade astronômica; Gandhi, em sua incorruptível adesão à não-violência. Estes avatares da autenticidade iluminam, com seu exemplo, o caminho da integridade pessoal.

Não obstante, a contemporaneidade, com seus imperativos de conformidade e seu fetichismo do consenso, erige obstáculos formidáveis à realização deste ideal. As redes sociais, com verdadeiros vigilantes digitais, instituem um regime de visibilidade permanente que estimula a uniformização comportamental e a padronização ideativa. Neste contexto, a coragem da dissonância e a ousadia da singularidade tornam-se virtudes cada vez mais raras e, por isso mesmo, mais necessárias.

A psique humana, em sua complexidade labiríntica, abriga inúmeras personas que se alternam no palco da existência social. A sabedoria consiste em reconhecer o caráter instrumental destas máscaras, sem permitir que suplantam o núcleo essencial da identidade autêntica. Conforme assevera Jung em suas cogitações sobre o processo de individuação, a meta última do desenvolvimento psíquico é a integração harmoniosa das múltiplas facetas do ser em torno de um centro unificador – o Si-mesmo.

Em seu magnífico tratado sobre a autenticidade, o filósofo Charles Taylor advoga que a busca pela fidelidade a si próprio não configura narcisismo contemporâneo, mas antes representa a expressão contemporânea de um ideal moral profundamente enraizado na tradição ocidental. Para Taylor, a autenticidade pressupõe o reconhecimento da dimensão dialógica da existência humana, sem a qual o próprio conceito de identidade pessoal se esvazia de significado.

A lealdade à própria essência manifesta-se, ademais, como requisito sine qua non para o exercício pleno da liberdade. Não há autonomia genuína onde impera a heteronomia valorativa. O indivíduo que terceiriza suas escolhas existenciais, abdicando da prerrogativa de autodeterminação, condena-se a uma vida por procuração, a uma existência em segunda mão.

Importa salientar, contudo, que a fidelidade a si mesmo não deve ser confundida com obstinação irrefletida ou inflexibilidade dogmática. A autenticidade verdadeira pressupõe abertura ao devir, permeabilidade à transformação, disposição para a metamorfose. Ser fiel a si mesmo significa, contraditoriamente, estar disponível para tornar-se outro, desde que esta alteração provenha de uma deliberação autônoma e não de uma capitulação à pressão externa.

As vicissitudes da existência contemporânea, marcada pela fragmentação identitária e pela fluidez dos vínculos, tornam particularmente árdua a manutenção da coerência existencial. Neste cenário de permanente volatilidade, a fidelidade a si mesmo assume os contornos de uma resistência ética, de uma insurgência silenciosa contra as forças homogeneizantes da globalização cultural.

Em suma, a máxima aqui debatida, encerra, em sua aparente simplicidade, um programa existencial de extraordinária densidade filosófica. Trata-se de um convite perene à autorreflexão, um chamado constante à vigília, uma exortação incessante à coragem. Num mundo crescentemente dominado pelo simulacro e pela representação, a fidelidade ao próprio ser emerge como derradeiro bastião da dignidade humana.

Que possamos, pois, cultivar esta virtude cardinal com denodo e perseverança, conscientes de que, ao sermos fiéis a nós mesmos, honramos não apenas nossa individualidade, mas também a condição humana em sua dimensão mais elevada.

Há questões que, pela sua própria natureza, permanecem à margem das grandes sistematizações filosóficas e, não obstante, constituem o centro mesmo de nossa existência. Entre estas, destaca-se com singular relevância o problema da fidelidade a si mesmo — problema este que, embora aparentemente simples à primeira vista, revela-se, sob o escrutínio da razão filosófica, complexidades e contradições aparentes. Que significa, afinal, ser fiel a si mesmo? E, mais ainda, por qual motivo deveríamos exercer tal fidelidade sem exigi-la dos demais?

A primeira dificuldade que se nos apresenta é de ordem essencialmente metafísica: antes de sermos fiéis a nós mesmos, é imperativo determinar o que constitui este “si mesmo” ao qual a fidelidade se dirige. Pois não é evidente que aquilo que muitos homens tomam por sua natureza mais íntima não passa, não raro, de um agregado de opiniões herdadas sem reflexão, inclinações não examinadas e paixões desordenadas? Nesse caso, ser-lhes fiel significaria perpetuar o erro, como aquele que, tendo acidentalmente enveredado por uma senda equivocada, persiste obstinadamente no caminho errado apenas por coerência com a decisão inicial.

O homem fiel a si mesmo deve, primeiro, descobrir qual é sua autêntica natureza — o que exige um trabalho de incessante depuração. Não é aquilo que simplesmente sou, mas aquilo que posso e devo ser, o objeto da fidelidade. O “si mesmo” não é um dado imediato, mas uma conquista, uma vitória alcançada mediante a confrontação corajosa com nossas próprias contradições e limitações.

Tal perspectiva nos conduz a uma concepção dinâmica, e não estática, da fidelidade a si mesmo. Não se trata de preservar imutável uma identidade já constituída, mas sim de um processo contínuo de autodesvelamento e autocriação. O homem fiel a si mesmo é aquele que, reconhecendo sua natureza inconclusa, assume a responsabilidade de completar-se, de construir sua própria identidade seguindo o esboço que lhe foi dado não como destino inexorável, mas como possibilidade a realizar.

Há, contudo, um perigo que paira sobre esta empreitada: o solipsismo moral que ameaça aquele que, concentrado exclusivamente em sua própria autenticidade, termina por ignorar os vínculos que o unem aos outros e ao mundo. Ser fiel a si mesmo não pode significar, portanto, o mero cultivo de particularidades idiossincráticas à margem de qualquer consideração intersubjetiva. Pelo contrário: se o verdadeiro “si mesmo” é nossa mais elevada possibilidade, e não nossos caprichos momentâneos, essa possibilidade inclui necessariamente a dimensão ética de nossas relações.

Aqui chegamos ao ponto crucial de nossa reflexão: ser autenticamente fiel a si mesmo já implica reconhecer e honrar os laços que nos conectam aos outros. A justiça, a compaixão e a consideração pelo semelhante não são imposições externas que limitam nossa liberdade, mas expressões do que há de mais nobre em nossa natureza. O homem justo não abdica de sua autenticidade ao respeitar os direitos alheios; pelo contrário, realiza plenamente o que nele há de mais próprio e excelente.

Por que, então, não deveríamos esperar dos outros a mesma fidelidade que exigimos de nós mesmos? Eis uma indagação que nos conduz às entranhas do problema da liberdade moral. Não se trata, como poderia parecer à primeira vista, de uma renúncia niilista a qualquer expectativa de reciprocidade ética. O princípio de não esperar fidelidade do outro, não propõe um relativismo moral em que cada um segue seu caminho sem jamais encontrar o semelhante. O que se propõe, antes, é o reconhecimento da singularidade irredutível de cada consciência e da responsabilidade que cada um possui perante sua própria interioridade.

Quando imponho ao outro minhas particulares concepções do bem e exijo que ele as adote como suas, não estou respeitando sua autonomia moral — essa mesma autonomia que reivindico para mim quando afirmo o imperativo da fidelidade a mim mesmo. A atitude ética consiste, portanto, em conciliar a firmeza na realização de meus próprios valores com o respeito pela liberdade do outro em descobrir e seguir os seus.

Que não se entenda, contudo, esta postura como indiferença moral ou como uma tácita aceitação de qualquer comportamento alheio. É preciso distinguir entre “impor” e “esperar”. Posso desejar, esperar e até mesmo trabalhar para que o outro reconheça determinados valores que julgo fundamentais, sem contudo fazer dessa expectativa uma exigência absoluta ou uma condição para minha própria integridade moral. Tal distinção é particularmente relevante na educação: o objetivo último não é que os jovens sigam cegamente os preceitos estabelecidos, mas que desenvolvam sua capacidade autônoma de discernimento.

Observa-se aqui um paradoxo fecundo: quanto menos exigimos dos outros que sejam como nós, mais livremente sua consciência pode reconhecer, por si mesma, o valor daquilo que encarnamos. Como o sol, que não obriga a flor a desabrochar, mas cria as condições para que ela, seguindo sua própria natureza, volte-se espontaneamente para a luz, assim também é nossa relação com o outro: sendo fiéis a nós mesmos sem impor essa fidelidade ao semelhante, criamos o espaço necessário para que ele, em liberdade, encontre seu próprio caminho.

Esta sabedoria — ser fiel aos próprios princípios sem fazer dessa fidelidade uma exigência universal — é particularmente preciosa em um tempo caracterizado tanto pelo conformismo massificado quanto pelo individualismo exacerbado. Contra o primeiro, ela afirma a necessidade da autonomia moral; contra o segundo, lembra que o verdadeiro “si mesmo” não é o ego isolado, mas a pessoa em sua dimensão relacional e ética.

Ser fiel a si mesmo e não esperar isso do outro: não uma fórmula de egoísmo ou indiferença, mas o reconhecimento simultâneo da responsabilidade que cada um tem por sua própria existência e do respeito devido à alteridade. Eis um princípio que, longe de separar os homens, pode uni-los em um nível mais profundo — não pela uniformidade das opiniões ou comportamentos, mas pelo reconhecimento mútuo da liberdade e da dignidade de cada consciência.

A comunidade não deve se fundar na submissão de uns às convicções dos outros, mas no encontro de seres que, sendo cada qual fiel à sua própria luz interior, reconhecem e respeitam a luz que habita no semelhante. Nesse sentido, ser fiel a si mesmo não é um fim em si, mas o meio necessário para uma relação com o outro — relação esta fundamentada não na identidade, mas na diferença respeitada e valorizada como condição mesma do verdadeiro diálogo.

Autor: Máquina Dourada