Máquina Dourada

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A Flecha e o Punhal, a Verdade Única e a Mentira Múltipla

A mais antiga das antinomias, a Verdade, solitária e íntegra, e a Mentira, polimorfa e perniciosa. Se a primeira é o baldrame imutável sobre o qual repousa a pirâmide do pleroma, a segunda, diáfano que a encobre, construído pela mão serpentina do arquienganador. A mentira tem vários caminhos; a verdade, um só. Esse é um dos motivos pelos quais as pessoas temem a mentira: Porque ela pode assumir múltiplas formas, enquanto a verdade possui apenas uma, sua polimorfia contrasta com a univocidade do verdadeiro.

A Verdade, lux perennis, não se dobra aos caprichos da conveniência. É flecha certeira que fende o alvo, fio desencapado que electrocuta os que ousam tocá-la sem a couraça da coragem. Seu caminho é único, íngreme como montanha que desafia os pés descalços dos peregrinos. Não se disfarça em pseudônimos, não se fragmenta em redemoinhos, é mapa gravado em papiro imarcescível, norte que orienta o navegante em mares de incerteza. Sua voz é grito, trovão que rasga o equívoco.

Já a Mentira, filha bastarda da hipótese, multiplica-se em hidra de mil cabeças. Seus braços são rios que divergem, águas sujas que confundem o sedento. Veste-se de sapatos cintilantes com cores que cegam o olhar crédulo, que faz o real se esfacelar em delírios. Seu verbo é poema sem parâmetros, conto de fadas que adormece a razão em berço de fantasias. Inventa pseudônimos, capas de santidade — até o farsante, em sua sagacidade nefanda, entoa hinos e carrega Bíblias, travestindo-se de anjo para melhor corromper.

Astúcia execrável! O mesmo maldito que elabora a desgraça ajoelha-se em falsa devoção, sorri com beatitude sacrílega, esconde garras sob hábitos piedosos. A Mentira, assim, não é pura negação da Verdade, mas sua paródia blasfema: Veste sua pele, distorce seu rosto, reformula o sagrado em profano. Temer-lhe é reconhecer a própria a capacidade humana de forjar infernos com o barro da imaginação.

A Verdade, ainda que tardia, é oceano que não se contém; a Mentira, frágil quebra-mar que o tempo desfaz. Uma espada afiada; a outra, uma adaga escondida. Se a primeira exige a renúncia do desnudamento — pois caminha descalça, sem ornamentos —, a segunda seduz com atalhos que levam a decadência, promessas escritas em areia movediça.

Que fique, pois, como sentença final: Enquanto os rios da Mentira correm em delta convulsivo, a Verdade jorra, inapelável, de nascente única. E mesmo que o farsante recite salmos e o mundo se embriague de fábulas, chegará a hora em que só restará, indelével, o resplendor daquilo que é.

Autor: Máquina Dourada