Da natureza reativa da virtude guerreira, um tratado sobre ação, reação e as energias do conflito. Consideremos primeiro o que é próprio do homem virtuoso diante da adversidade. Não seria este aquele que, mediante a reflexão e o autodomínio, transmuta o veneno da ofensa em remédio para a alma? A energia de guerra que em nós reside não é diferente daquela chama vital que os antigos reconheciam como essência transmutadora do espírito humano – quando confrontada com a injustiça, eleva-se não como primeiro movimento, mas como resposta necessária e proporcionada às circunstâncias que se apresentam.
Da reação como virtude nascida da necessidade, e energia beligerante que em mim se manifesta, quando observada por espírito atento, revela-se não como irrupção primária, mas como resposta à fraqueza alheia que se disfarça de força. Pois eis que aquele dominado pelo desejo desmesurado de poder não reconhece seus limites e, tal qual o tirano descrito nos diálogos de Platão, avança sobre territórios alheios com passos imprudentes. A fraqueza deles está precisamente nesta incapacidade de contenção – não sabendo governar seus próprios impulsos, como poderiam governar suas relações com o outro?
Minha reação guerreira nasce, portanto, da ordem necessária que repõe ao mundo sua harmonia. Quando me ergo em protesto enérgico contra a afronta, não faço mais que restaurar o equilíbrio onde antes havia desordem. É virtude reconhecer quando a paz deixa de ser paz e torna-se apenas submissão – neste preciso momento, a energia reativa é a própria manifestação da justiça em sua forma dinâmica.
Da ação beligerante como sintoma de insuficiência, observem agora como a energia guerreira daqueles que nos afrontam difere em sua natureza mais íntima. Sua agressão não é resposta ou reequilíbrio, é iniciativa desmedida e desequilíbrio provocado. Tal qual o homem em seu ressentimento, buscam na dominação externa o que lhes falta internamente. A ação beligerante primeira demonstra a incapacidade de encontrar valor em si mesmo sem diminuir o outro.
E que fraqueza maior poderia haver que esta? Não conhecendo a plenitude interior, lançam-se ao exterior em busca de conquista. Sua aparente força é, na verdade, confissão silenciosa de um vazio que tentam, em vão, preencher com o domínio sobre outrem. Como bem observaria Aristóteles, confundem a aparência da virtude com sua essência, tomando a audácia imprudente por coragem genuína.
Na origem sublime da energia reativa, há uma nobreza que surge como reação justa. Enquanto a agressão primeira nasce da insuficiência, a resposta proporcionada emana de um centro de plenitude. Não age por carência, pois é uma reação por abundância – é a própria expressão da vida que se defende não por medo, mas por amor a si mesma e aos valores que sustenta.
A energia de guerra que manifesto como reação não se origina, portanto, do mesmo solo que produz a violência primeira. Brota, antes, daquele terreno onde a justiça se encontra com a coragem, onde a dignidade se une à necessidade. Sua raiz não é a insegurança, mas a confiança absoluta nos princípios que defende; não é o ódio destrutivo, mas o amor construtor que protege o que merece ser protegido.
Do triunfo inevitável da virtude reativa, considerai, pois, como a energia reativa, por sua própria natureza, carrega consigo o germe de seu triunfo. Precisamente por nascer não do vazio, mas da plenitude, ela persiste onde a energia agressora se esgota. A ação primeira, nascida da carência, acaba-se ao alimentar-se de si mesma. Já a reação virtuosa, sustentada por fontes mais profundas, renova-se continuamente no contato com os princípios eternos que a inspiram.
E não é este o segredo de toda vitória? Aquilo que age movido apenas pela ambição desenfreada eventualmente encontra seus limites naturais, enquanto a energia que reage em nome da justiça encontra sempre novas forças, mesmo quando parece esgotada.
O imperativo da resposta justa, apresenta-se, portanto, não como agressor primeiro, mas como restaurador da ordem. Que tua energia beligerante seja sempre resposta, nunca provocação. Nesta atitude está a certeza da vitória não apenas contingente, é necessária – pois o que age por iniciativa desordenada pode triunfar momentaneamente, mas o que reage em nome da ordem universal triunfa por necessidade.
Eis que a energia de guerra que manifestamos como reação não apenas se diferencia moralmente daquela que nos afronta primeiro, mas também a supera em eficácia e persistência. Assim como o arqueiro, que retesa seu arco para depois liberar a flecha com direção e força precisas, nossa energia reativa acumula-se para manifestar-se no momento exato, com a intensidade justa, em direção ao alvo necessário.
E nisto está nossa superioridade final – não agimos primeiro, mas agimos melhor; não provocamos o conflito, mas o resolvemos; não sucumbimos à fraqueza que inicia a agressão, mas elevamo-nos na força que a contém e supera. Esta é a virtude da reação que, por nascer do bem, conduz inevitavelmente ao bem.
Autor: Máquina Dourada