Máquina Dourada

Busque as Grandes Sabedorias!

A Semente no Labirinto

O homem, entidade bifronte, se desfaz no tempo, mas pulsa, intacto. “Torna-te quem tu és” Um grito que atravessa eras, exigindo a decifração de si. Píndaro, no auge de sua visão poética, não proclamou sem propósito.

Oh, extraordinária composição de espírito e matéria, contemplai vossa dupla natureza! Vós, entidade polifacetada, que estais suspenso entre o céu e a terra, entre o logos e o barro. Acaso não percebeis como vos desfazeis no fluxo implacável do tempo, enquanto, simultânea e misteriosamente, algo em vossa essência permanece intacto, inviolado pelo movimento das horas?

Eis a primeira verdade que trarei pelo mérito da razão: assim como o navegante não pode dirigir seu barco se desconhece as correntes, também vós não podeis trilhar o caminho da excelência se ignorais vossa natureza fundamental. O antigo oráculo délfico, portador da sabedoria apolínea, não proferiu em vão as palavras “Conhece-te a ti mesmo”.

É preciso reconhecer, como ensinou o Platão, que vivemos prisioneiros da aparências. Os cativeiros dos sentidos, corrompidos por mãos externas e nutridos por opiniões alheias, camuflam a geografia sagrada do vosso epicentro. A geografia sagrada do eu, entretanto, é apagada pela reclusão sensorial, corrompidos pelos desejos rivais que modelam a percepção. Assim como o topógrafo não pode desenhar um mapa fiel se estiver perdido na neblina do ambiente, também o homem não pode alcançar sua plenitude enquanto permanece encoberto pelas ilusões.

Observai como os desejos rivais batalham em vosso peito! Eles são como os pretendentes que disputavam o palácio de Odisseu na ausência do Rei. É necessário, portanto, que empreendais o retorno à Ítaca interior, e que, armado de sagacidade e coragem, expulseis aqueles que usurparam vosso trono.

Da valentia necessária em direção ao núcleo divino, o desnudar-se de trajes emprestados demanda audácia extraordinária. Não é essa virtude celebrada por Aristóteles como necessária ao homem prudente? É preciso romper o cárcere imposto pelos outros e adentrar as catacumbas do silêncio. Lá, onde o ruído do mundo não penetra, a voz do divino, ainda que sussurrante como o vento entre folhas de oliveira, ressoa com a clareza de um címbalo.

Nesse êxtase introspectivo, análogo àquele descrito por Plotino, o eu ilusório se encerra. Este homem que sois é a síntese ambivalente de carne perecível e essência imortal – metempsicose -. Sois, simultaneamente, o arquiteto de vossa prisão e o demolidor de seus alicerces. No tempo, que é a mais suave das esculturas, desfazei-vos em camadas como a cera que escorre, mas permaneceis intacto na essência, como a chama que, consumindo o círio, conserva sua luminosidade impoluta.

“Torna-te quem tu és” — imperativo categórico da antiguidade, invocado no precipício do agora, como um grito que desafia a criatura a decifrar o código ancestral gravado e sua própria ossatura.

Lá, no limbo entre o respirar e o pensar, a voz do divino — sussurrante como o vento que move as folhas, e como o murmúrio das águas, mas clara como o clangor de um tamborim — reverbera para desfazer os nós da identidade suposta. Assim como Teseu, munido do fio de Ariadne, penetrou no labirinto para vencer o Minotauro, também vós deveis penetrar nos recônditos da consciência para enfrentar os monstros que habitam o labirinto.

O eu fragmentário então se desintegra, não no nada que amedronta, mas no tudo que transfigura: a fantasia do eu limitado se encerra, expondo a face secreta e radiante da consciência.

Da jornada transformadora, a travessia não se realiza por rotas previamente aferidas. Cada passo é simultaneamente criação e renúncia: morrer para o que se imaginava ser, a fim de nascer para o que sempre se foi. Esta é a metempsicose — não necessariamente a transmigração entre corpos, mas a transformação dentro do próprio ser.

O mundo, então, converte-se em ateliê do espírito, onde o cotidiano, outrora prosaico como argila não trabalhada, transubstancia-se em liturgia sagrada. Não há necessidade de fuga austera para montanhas isoladas; o ordinário torna-se templo, o gesto banal — lavar as mãos, caminhar pela ágora — torna-se sacramental, e o aparente caos da existência revela-se como partitura de uma harmonia velada, escrita nas entrelinhas do devir pelo compositor supremo.

Os obstáculos, a resistência do hábito, são os guardiões das transformações formidáveis, o peso da herança cultural, o canto das sereias da conformidade, o conforto da ignorância — todos convidam à estagnação como o lótus que seduziu os companheiros de Ulisses. Vencer esses delírios exige a coragem de uma fera, pois, como ensinou os sábios do passado, o caminho que sobe e o caminho que desce são um só e o mesmo.

Todos clamam pela estagnação, pela adesão à segurança da fantasia. Pois tu! Levantai-vos, pois, com a ferocidade do leão que rasga as cortinas da mentira com garras de diamante! Aquilo que se revela é sublime: tornar-se humano não é cair, é a via régia para manifestar o divino. A carne é o veículo da epifania, não é prisão, como queriam os órficos, mas templo, como proclamou o divino Paulo; a vida terrena é sagrada onde a semente basilar — já perfeita em sua latência — desabrocha em flor única, irrepetível e eterna.

Da união final e celebração do ser, não existe dualidade a sanar, mas união a celebrar. Como ensinaram os antigos, o céu não está acima, mas dentro; o infinito não mora em horizontes distantes, mora em cada respiro.

Assim cumpre-se então o destino: ser, enfim, a encarnação viva daquilo que, além das formas transitórias, sempre se foi. Ser quem você é!

Ó ser admirável! Reconhece tua grandeza original! És o arco e a flecha, o arqueiro e o alvo. Aqui tua jornada não é linear, é circular: partes de ti mesmo para, após a grande odisseia, retornares a ti mesmo — não como eras, mas como sempre estiveste destinado a ser!

Sê tu mesmo! Sê quem tu és!

Autor: Máquina Dourada