Sobre a ascensão da alma através do conhecimento e a iluminação que dela provém, é correto afirmar que geralmente toda busca pelo saber, assim como toda contemplação da verdade, tem em mira um bem superior; e por isso foi dito, com muito acerto, que a sabedoria é aquilo que eleva a alma humana para além de sua condição terrena. Porém, observa-se entre os efeitos desta elevação certa dualidade: alguns são penosos, outros são glorificantes. É sobre esta natureza ambivalente da sabedoria que devemos agora discorrer.
A mente que se eleva além da ignorância voluntária descobre, em seu ápice, vertigens do indiferente, quanto mais se avança no entendimento, mais se deseja retroceder, como Orfeu diante de Eurídice, temendo que o olhar crítico dissolva o engano que sustenta o frágil equilíbrio. Desde os mitos fundadores até os dilemas da modernidade, o saber abraça o sofrimento.
Sucede, pois, que aquele que se dedica à vida contemplativa experimenta, de início, o afastamento das opiniões comuns que satisfazem à multidão. Quando a mente se amplia para além dos limites do ordinário, aquele que investiga descobre-se, por vezes, em uma singular posição: como o viajante que alcança o píncaro da montanha e, contemplando o vale abaixo, não mais se reconhece como parte daquela paisagem. É assim que se manifesta o primeiro aspecto da sabedoria: o distanciamento.
Não seria exagerado afirmar que o homem erudito se encontra na mesma posição dos prisioneiros libertos da caverna de Platão; tendo vislumbrado a luz solar, experimenta a impossibilidade de comunicar plenamente suas visões àqueles que permanecem lá dentro. Surge, assim, uma solidão peculiar, não por carência de companhia, mas por excesso de entendimento.
Porém, diferentemente do que afirmaria um pessimista, esta solidão não constitui uma condenação, mas uma iniciação. Se o olhar que penetra as aparências percebe o caráter transitório das paixões humanas e a fragilidade de nossas construções sociais, tal percepção não deve ser causa de desespero, pois é um princípio de libertação. Como disseram os Evangelistas: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
No Eclesiastes, o pregador clama: “Na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a dor”. A lucidez se torna fardo. O filósofo Arthur Schopenhauer, ao descrever o mundo como representação e vontade, afirmava que a consciência aguçada nos torna espectadores atormentados do absurdo, capazes de enxergar a vacuidade dos desejos, a brevidade das paixões e a ironia cruel de buscarmos sentido em um universo mudo. A inteligência, assim, mais que instrumento de domínio, é a nudez metafísica. Não é casual que as figuras mais lúcidas da literatura e do pensamento sejam também as mais melancólicas.
É correto dizer, com efeito, que muitos dos grandes pensadores experimentaram a melancolia como companheira inseparável da reflexão. Mas observemos com mais cuidado: não seria esta melancolia um estágio necessário e não um destino final? Tomemos o caso de Sócrates que, embora reconhecesse os limites da sabedoria humana, mantinha-se firme em sua jovialidade e na capacidade de transformar o diálogo em ocasião de alegria intelectual.
A alma que se eleva por meio do conhecimento enfrenta, sem dúvida, o vértice do precipício – aquela sensação de que, quanto mais compreende, mais percebe a vastidão do incompreendido. No entanto, é precisamente neste ponto que se manifesta a excelência da virtude intelectual: a capacidade de contemplar este precipício não com temor, mas com admiração. Como nos ensinou Aristóteles, o princípio da filosofia é o espanto, não o desalento. Diziam os antigos Gregos, a verdade geralmente vem acompanhada do susto.
Se considerarmos com atenção a natureza do conhecimento, veremos que ela se assemelha à ascensão de um monte de cujo cume se avista horizontes cada vez mais vastos. A cada passo, o mundo conhecido se expande, e o desconhecido, em vez de diminuir, demonstra-se ainda mais abrangente. Contudo, é precisamente esta revelação que confere à jornada seu caráter sublime. A vertigem experimentada não é sintoma de queda.
Hamlet, príncipe da dúvida, definha em seu “ser ou não ser” enquanto a corte de Elsinore se diverte na ignorância festiva. Dostoiévski, em Memórias do Subsolo, desenha um homem cuja hiperconsciência o paralisa, transformando-o em um “inseto pensante” que, ao compreender a mecânica de sua própria insignificância, perde até mesmo a capacidade de agir. Até mesmo Sócrates, ao beber a cicuta, reconhece que a sabedoria nasce em admitir a própria ignorância — revela-se o caráter autofágico do conhecimento: ele devora as certezas que o alimentam. Há uma nobreza trágica nessa condição. Se a ignorância é um disfarce dourado que esconde a crudeza do real, a inteligência é o gesto ícaro de rasgá-lo, ainda que a queda seja inevitável.
Certamente, aquele que penetra os mistérios da existência encontrará, por vezes, verdades dolorosas. Mas é faculdade própria do sábio converter essa dor em compreensão mais profunda. A tristeza do conhecimento não é fim, é meio; não é destino, é passagem. Como no ritual eleusino, após a noite de mistério vem a epifania da manhã.
O sábio não se distingue do ignorante por estar isento de sofrimento, mas por transformar o sofrimento em sabedoria. O que ao ignorante aparece como destino implacável, ao sábio revela-se como condição a ser transmutada. A mente que se alarga pelo conhecimento não apenas contempla a realidade, também participa de sua recriação.
Não é, portanto, por acaso que os grandes mestres do pensamento humano afirmavam que o conhecimento, longe de ser apenas instrumento para dominação da natureza, constitui via para a transformação interior. O bom sábio reconhece nas limitações do conhecer um chamado à humildade – virtude sem a qual nenhuma sabedoria se sustentaria.
Se há solidão no ápice do conhecimento, há também uma forma superior de comunhão: aquela que nos une, através do tempo, aos grandes espíritos que trilharam o mesmo caminho antes de nós. O pensador nunca está só, pois dialoga constantemente com aqueles que o precederam na busca pela verdade. Como disse Bernardo de Chartres, somos anões nos ombros de gigantes – nossa visão alcança mais longe não por mérito próprio, mas pela elevação que nos proporcionam aqueles que vieram antes.
Ademais, a sabedoria jamais se separa da virtude prática. O conhecimento que não se traduz em ação benéfica para a pólis permanece improdutivo. O sábio, compreendendo os limites da condição humana, não se retira em desdém, retorna à caverna para guiar seus semelhantes. A solidão da sabedoria, assim compreendida, é momento necessário de recolhimento antes do retorno transformador.
Examinemos ainda: a difícil travessia do intelecto pelos territórios da dúvida e da incerteza não nos conduz, necessariamente, ao desamparo, mas pode elevar-nos a uma compreensão mais autêntica de nossa própria natureza. O luto pelas verdades perdidas – aquelas certezas ingênuas da juventude – prepara o terreno para um florescimento mais vigoroso do pensamento maduro.
A tristeza do sábio não é, pois, sintoma de fracasso, mas indício de profundidade. Como o oceano, cuja superfície pode ser agitada por tempestades enquanto suas profundezas permanecem em calma majestosa, assim é a alma daquele que atingiu a sabedoria: experimentando as perturbações próprias da vida humana, mas sustentando em seu interior uma serenidade inabalável, fruto do conhecimento.
Em apologia ao amor fati, abracemos o sofrimento inerente à lucidez como parte de uma afirmação superior da vida. A melancolia do sábio não seria, então, um fracasso, mas uma forma de resistência: recusar-se a adormecer no conforto das aparências. A tristeza intelectualizada não é apenas uma patologia, mas sintoma de uma profundidade basilar. O poeta Fernando Pessoa, em seu heterônimo Bernardo Soares, confessa: “Tenho a grande tristeza de saber que tudo é triste”. Tal sentimento não nasce da fraqueza, mas da coragem de encarar o mundo sem mitologias consoladoras. Se a inteligência nos condena a um exílio das certezas ingênuas, ela também nos eleva à condição de artífices de nosso próprio significado.
A melancolia, longe de ser um mal a ser extirpado, converte-se em companheira do pensamento — um luto necessário pelas verdades perdidas, mas também um canto fúnebre que, em sua elegância sombria, celebra a liberdade de ver o mundo como ele é: complexo, contraditório e, talvez por isso mesmo, digno de ser decifrado.
Se há uma melancolia própria do conhecimento, há também uma alegria que só o conhecimento proporciona: aquela que nasce da contemplação da ordem, da harmonia que subjaz ao aparente caos, do sentido que emerge após a travessia do absurdo. Como ensinou Spinoza, a beatitude é o conhecimento intuitivo de nossa participação na natureza divina.
Concluamos, portanto, que a vertigem experimentada por aquele que ascende aos cumes do conhecimento não é convite à desistência, mas prova de que a jornada continua. O horizonte que se amplia deve causar maravilhamento. E se é verdade que “na muita sabedoria há muito enfado”, não é menos verdade que deste enfado nasce uma forma superior de contentamento – aquele que não depende das circunstâncias externas, e brota da própria capacidade da alma de compreender e amar a verdade.
A lucidez, longe de ser fardo insuportável, revela-se como a mais preciosa das conquistas humanas. O filósofo que percebe a vacuidade dos desejos mundanos não está condenado ao niilismo, está libertado para a busca de valores mais elevados. A nudez metafísica é condição para um renascimento espiritual. A sabedoria não se contenta em contemplar o mundo: aspira a transformá-lo, a elevá-lo, a aproximá-lo de sua forma ideal.
Que a solidão do sábio seja, portanto, não o destino final, mas estação necessária em uma jornada que culmina na mais profunda das comunhões: aquela que une o homem à verdade, à beleza e ao bem. Esta é a mais elevada das artes humanas – transformar o conhecimento em virtude e a virtude em felicidade.
Autor: Máquina Dourada