Máquina Dourada

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Alicerces da Sociedade Interior

A fidelidade, entre as excelências humanas, nasce como fundamento indispensável à plenitude do ser, pois não se restringe à singela constância nas relações exteriores, mas consiste, antes, na harmonia íntima da alma consigo mesma. Se desejamos perscrutar sua essência, cumpre-nos, primeiramente, indagar a qual objeto tal virtude deve aderir. Pois, se é próprio do homem almejar a perfeição, esta só se concretiza quando o espírito, em sua totalidade, conforma-se à sua natureza, resistindo às injunções externas que buscam desviá-lo de seu curso reto. É mister que o indivíduo, neste século de turbilhonantes demandas e convulsões sociais, redescubra o venerando preceito da fidelidade a si mesmo — não como expressão pueril de egolatria, mas como corolário da própria existência consciente.

Com efeito, ser fiel a si mesmo é não se deixar transformar em caricatura do alheio, é não se obliterar nas expectativas heterônomas que, como espectros insinuantes, exigem conformidade em detrimento da essência. A alma humana, quando maculada pela contínua adulação do outro, envereda por veredas de alienação silenciosa, perdendo paulatinamente o fulgor de sua singularidade.

Distingue-se a fidelidade em dois aspectos: uma voltada ao outro, outra consagrada ao si mesmo. A primeira, embora digna de louvor, mostra-se contingente e precária, pois repousa sobre a volição alheia, sujeita aos caprichos do tempo e à instabilidade dos afetos. A segunda, entretanto, enraizada no centro do ser, revela-se perene e indomável, pois emana da consonância entre o intelecto e o apetite retificado, à semelhança do sol, cuja luz persiste mesmo quando nuvens passageiras a encobrem. Tal fidelidade não é sinônimo de obstinação cega, nem de misantropia solipsista. Trata-se antes de uma adesão inalienável aos próprios princípios, uma escuta reverente do que em si ressoa como veraz, justo e belo. É um culto interior, um zelo pela coerência íntima, que não se curva às volúveis injunções da turba.

Muitos, porém, incorrem em grave equívoco ao confiar aos outros a guarda de sua integridade, como se a lealdade externa pudesse suprir a carência de coerência interior. Tal erro assemelha-se ao do timoneiro que, depositando fé nas estrelas do céu, negligencia o governo de seu próprio leme. Pois, assim como o navegante não domina a nau sem conhecer os ventos e as correntes, tampouco o homem logrará equilíbrio sem antes ancorar-se em seus princípios, alheio às oscilações dos juízos alheios.

Não basta evitar a traição alheia; urge extirpar de si a contradição entre o pensamento, a palavra e a ação. Pois a hipocrisia, ainda que dissimulada, corrói a alma como ferrugem no bronze, dissolvendo-lhe a solidez essencial. Alguns objetarão: “Como sustentar tal fidelidade em um mundo de ilusões e convenções?” A resposta se encontra na distinção entre o aparente e o real. O sábio, qual olho treinado, não se deixa iludir pelas aparências da opinião alheia. Logo, a fidelidade externa é acidental, enquanto a interna é substancial — não como atributo emprestado.

Não se trata, contudo, de desdenhar os vínculos que nos unem aos outros, é importante reconhecer que toda relação genuína pressupõe indivíduos íntegros. Assim como uma ponte só se sustenta se ambas as margens são firmes, a lealdade recíproca depende da solidez de cada parte. Quem espera que os outros carreguem o fardo de sua identidade assemelha-se ao vácuo.

A fidelidade a si mesmo é ato de coragem, recusa-se a ser cópia imperfeita de outrem e, ao invés, transforma-se à imagem de sua própria excelência. A felicidade se encontra na atividade da alma conforme à virtude — e virtude alguma floresce sem a raiz da autenticidade. Assim, a fidelidade íntima é condição sine qua non para a realização do telos humano, no qual a alma, em sua plenitude, alcança a excelência que lhe é própria.

Como todo ente busca, por essência, a completude de sua existência, assim também o homem, animal dotado de razão, almeja a consonância entre ação e natureza. A fidelidade, pois, não se circunscreve ao simples pacto externo, esta se radica na integridade do ser consigo mesmo. Pois, assim como a cidade se edifica sobre alicerces de justiça, o indivíduo constrói-se sobre a constância de seu caráter.

Erram aqueles que depositam no outro a guarda de sua paz. A virtude da autofidelidade, contudo, não se confunde com o egoísmo dos cínicos, que desdenham o outro em nome de si. Antes, é mediania entre a subserviência e a arrogância, pois o homem que a si é leal conhece os limites de sua phýsis e os respeita. Como o arqueiro de Zenão, mira o alvo de sua existência sem se deixar desviar pelo tremor das opiniões alheias.

A ilusão de que os outros devem ser fiéis a nós nasce da confusão entre ethos e nomos. Pois se as leis regulam os atos externos, o caráter é obra da alma, e esta não se submete a decreto algum. Como escreveu Eurípides: “Nenhum jugo aprisiona o pensamento” — e assim é a fidelidade, fruto voluntário, não colhido à força.

Os que clamam por lealdade externa podem estar se aprisionando. Mas o oceano segue sua natureza, indiferente a preces ou ameaças. Do mesmo modo, o outro age conforme sua própria excelência ou vício. Esperar o contrário é ignorar a autonomia da vontade, fundamento primeiro da condição humana.

Não obstante, a autofidelidade não isola o homem da pólis. Antes, fortalece-a, pois só o indivíduo íntegro pode contribuir à harmonia coletiva. Como a pedra angular, que sustenta o arco não por pressão alheia, mas por equilíbrio próprio, assim o homem fiel a si torna-se coluna invisível da sociedade.

A fidelidade a si mesmo exige o cultivo da temperança que harmoniza desejo e razão. Pois, como ensinara Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo” não mero adágio, um imperativo para quem almeja a felicidade. Aquele que desconhece suas fronteiras interiores jamais será senhor de suas ações. A crítica comum — de que tal postura conduz ao isolamento — revela-se falaciosa. Pois a verdadeira autofidelidade não nega o outro. Como na tragédia de Antígona, onde a heroína, fiel a seus princípios, enfrenta até a morte, mas não exige que Creonte compartilhe sua verdade.

Nessa senda, o ser que se conhece e se honra não hesita em contradizer a maré das convenções quando estas atentam contra seu interior. Pois, que mérito há em agradar a todos, se ao final se abandona a si mesmo? Que vitória habita na aprovação universal, se esta é conquistada à custa da própria inteireza? A fidelidade a si é, pois, ato de coragem e sabedoria. É renúncia ao histrionismo existencial, à incessante representação que visa apenas aplausos. É um regresso e um exílio voluntário da superfície, onde se cultiva não a imagem, mas a substância. Que cada espírito, pois, resguarde esse santuário íntimo, onde habita sua identidade imperecível. E que a originalidade — ainda que dissonante — seja sua herança e seu legado.

Assim, digamos que a fidelidade alheia, quando ocorre, é dádiva fortuita, não dívida natural. O sábio, porém, edifica sua morada interior sobre alicerces que não dependem de mãos externas. Pois, nas palavras de Píndaro: “Torna-te quem és” — eis o único juramento que a alma sábia celebra, imune aos vendavais da inconstância humana.

A cidade ideal, tal qual a alma reta, não espera que os ventos soprem em sua direção, pois levanta velas ajustadas à sua rota. Assim o homem virtuoso, navegador de si mesmo, avança sem exigir que o mar se faça capricho de seus desejos. Pois a fidelidade, em sua identidade, é viagem solitária — e nessa solidão consciente encontramos a liberdade de ser.

Autor: Máquina Dourada