Quando o espectador intersticial irrompe na sinuosa narrativa do devir — alheio à embriogênese do fenômeno —, seu veredito assemelha-se a um arqueólogo de fragmentos: escava ruínas sem conhecer o projeto arquitetônico. A crítica, nesse âmbito, não é mácula moral, mas anacronismo cognitivo — uma tentativa de ler um poema pelo verso mediano, ignorando a métrica do primeiro hemistíquio. Quem não navegou pelos proto-oceanos da gênese vê apenas ilhas desconexas, nunca o continente submerso que as unifica. Quando tal espectador ingressa num processo em sua fase intermediária, sem ter acompanhado seu início, torna-se incapaz de perceber a evolução que, de fato, se operou. Ao constatar apenas o estágio atual, desprovido da perspectiva do estado inicial – quando a situação se encontrava sobremaneiramente deteriorada – ele tende a condenar tanto o processo quanto quem o conduziu. Por outro lado, se o indivíduo tivesse presenciado desde o princípio as condições mais adversas e, somente então, reinserido-se no meio do processo, a evidência da melhoria diminuiria sua propensão a uma condenação severa. Portanto, sempre que alguém o criticar ou censurar, permita que tal crítica adentre por um ouvido e saia pelo outro. A condenação alheia, assim, é filigrana da incompletude perceptiva. Se o observador houvesse testemunhado a germinação dos esboços — onde o informe ganha nervuras, a bagunça se dobra em prelúdio —, sua lente seria calibrada pelo mapa do possível. Na segunda investida, mesmo no ápice da turbulência, ele discerniria geodésicas de progresso: não mais falhas, mas agora vértices de um poliedro em rotação. A reprovação, então, se transformaria em interrogação topológica — pois só quem mapeou vales entende a geografia dos cumes. Como anular a confusão do juízo parcial? Não pela retórica, mas pela semiose do inefável. A palavra alheia, quando destituída de cronologia íntima, deve ser recebida como meteoro em atmosfera alheia: incendeia-se no vácuo, sem deixar cicatrizes. O sábio não refuta fantasmas epistêmicos; permite que se dissipem na irradiação passiva de sua constância. A originalidade jaz na reengenharia da escuta. Em vez de filtros auriculares, imagine pontes de cronótopos: o passado, arquivo palimpséstico, e o futuro, rascunho de hipóteses. Entre ambos, o presente — escultor de leis — funde a crítica em ligas de autenticidade, evoluindo cada censura em tinta para sua própria investigação filosófica. Fuja dos ecos lexicais: onde outros nomeiam “processo”, insira filigrana ontogênica; onde sussurram “evolução”, forje vórtice morfogenético. Abandone analogias bélicas e adote metáforas de caráter quântico: a existência como rede de supercordas, o julgamento alheio como interferência em campos não ressonantes. Substitua “coração” por núcleo de entropia dirigida, “mente” por laboratório de fractais límpidos. Na gramática do insólito, opte por quiastos que embaralhem a causalidade: “Na estrutura do tempo, onde os vereditos se evaporam como isotopias, nasce o postulado irrefutável — o da autogênese”. Exclua redundâncias e abrace neologismos: cronofotossíntese (a fotografia do tempo em crescimento), psamodrama (o teatro das areias interpretativas). Assim, diante do árbitro de fragmentos, sorria com a sofisticação do incomensurável. Sua trajetória não demanda testemunhas — é glifo ancestral, gravado em tabuletas de âmbar mental. Enquanto os outros julgam sílabas soltas, você habita o poema completo: intacto, porque já é verbete vivo de um léxico que transcende dicionários.
Autor: Máquina Dourada