Máquina Dourada

Busque as Grandes Sabedorias!

Bençãos Podem Virar Maldições – O Perigo da Habilidade

Ser treinado para o que é difícil é algo bom; porém, infelizmente, isso pode fazer você achar que coisas fáceis também sejam difíceis. Então, acabará recuando e evitando resolver questões fáceis e simples de serem resolvidas, achando que seria embaraçoso… Ao tornar-se hábil em desafios árduos, pode-se nutrir receio diante do fácil e trivial, imaginando que exigirão esforços desproporcionais.

Quando a mente se entrincheira na resolução de mistérios hercúleos, é levantado uma barreira ante o trivial. A perícia, contraditoriamente, dificulta a simplicidade e o óbvio, transformando tarefas ligeiras em monstros imaginários. O sujeito, então, vaga como Tântalo em seu próprio intelecto, sedento por soluções que jazem à flor da pele, mas invisíveis sob o peso da autoimposta grandiosidade.

A maestria em decifrar dificuldades abstrusas pode gerar ilusões, nas quais o cérebro, acostumado com batalhas titânicas, interpreta a planície desimpedida como um tártaro. O simples adquire aura de logomaquia, e o indivíduo, temendo emboscadas onde há apenas vazios e vários nadas, acaba então retrocedendo. É ironia, o mesmo olhar que desvenda fractais complexos tropeça na linearidade do elementar.

Voar alto demais nas asas da complexidade queima as rédeas que ligam ao chão. O especialista, forjado nas fornalhas do intricado, passa a ver dificuldade em coisas simples. Seu erro? Confundir altitude com profundidade. O que está ao alcance da mão parece exigir escadas de Babel, quando bastaria um gesto despretensioso.

O alquimista, obcecado por cadinhos e fórmulas herméticas, esquece que a água banal mata a sede tão bem quanto elixires. Sua mente, intoxicada pela resolução de grandes desafios, rejeita a economia do singelo, inventando obstáculos onde a natureza já depositou atalhos. A genialidade, aqui, é doença da percepção. Eis mais uma benção que pode virar maldição.

Criou-se uma teologia do complexo. O sagrado (o difícil) exige rituais; o profano (o fácil) parece armadilha. O exegeta das complicações desconfia da graça imerecida das soluções simples, como se a vida fosse sempre enigma sibilino. Prefere o suplício do árduo à leveza do haicai – segurança na própria mitologia de esforço.

O sujeito, após construir sua identidade no vínculo do árduo, é também de grande importância que se aprenda aceitar a facilidade. Aceitar a facilidade seria remover a armadura que o define. O trivial ao tornar-se ameaça, resolvê-lo sem labuta não invalidaria anos de autoescultura. Cultivar ou não cultivar o mito da dificuldade universal? Enfrentar ou não enfrentar o vazio de uma resposta sem glória?

Cada problema fácil é fenômeno estranho à consciência treinada. Como um cavaleiro medieval diante de uma porta giratória, o experto hesita: Onde está o dragão? Onde está o mecanismo oculto? A ausência de resistência pode confundir mais que mil batalhas. Opta-se então pela retirada tática, temendo que a simplicidade seja cilada.

Diante do atalho negado, o conhecimento profundo gera sua própria cegueira. A mente, habituada a desbravar selvas, perde a capacidade de enxergar o planalto. O caminho reto é suspeito; a estrada sem curvas parece ilusão. Assim, o sujeito prefere rotas oblíquas, desdenhando da retidão que levaria direto ao ponto.

O esforço pode ser em vão, na busca por significado, esquece-se que nem tudo precisa ser traduzido. O hábito de escavar até o magma faz o sujeito cavar mesmo em areia movediça, quando bastaria pisar levemente. A profundidade, tornada vício, nega a astúcia da superfície.

Produzir complicações é arte involuntária. O poeta do complexo decora versos de 100 cantos, mas treme ante um dístico. Sua preocupação? Que o simples revele que a maestria estava na economia, não no enigma. Assim, perpetua-se a tragédia, quem domina o épico, pode definhar ante o haicai, temendo que a brevidade exponha seu vazio de concisão.

Autor: Máquina Dourada