A atenção recurso intangível, dádiva que se concede ao outro, constitui-se como uma das mais preciosas moedas de troca nas relações humanas de nossa era.
A atenção, apresenta-se como uma forma de energia psíquica limitada, tal qual já advertia Sêneca em seus escritos sobre a brevidade da vida. Quando um mortal concede sua atenção a outrem, está, com efeito, concedendo parcela inestimável de sua própria vida – porção esta que jamais poderá ser recuperada. Como nos ensina a sabedoria antiga, o tempo é o bem mais precioso entre todos, pois uma vez despendido, jamais retorna.
A atenção existe em dois estados: como potencialidade dispersa e como foco direcionado. É apenas neste segundo estado que ela adquire valor econômico nas relações humanas, tornando-se objeto de desejo e disputa.
Do convencimento e da promessa, quando um indivíduo, imbuído de intenções diversas, emprega sua retórica para conquistar a atenção de outrem, estabelece-se um contrato tácito entre ambos. Neste pacto não escrito, aquele que pleiteia a atenção promete, de forma implícita ou explícita, uma contrapartida que justifique o investimento do outro.
Esta promessa, como bem observaria Platão em seus diálogos sobre a justiça, carrega em si uma obrigação ética de cumprir o que se anunciou. O convencimento assemelha-se, assim, à arte da persuasão descrita nos antigos tratados de retórica, como compromisso perante o interlocutor.
Quando o resultado prometido não se materializa, quando a expectativa gerada pelo convencimento se esvai em desapontamento e frustração da expectativa, ocorre uma ruptura neste contrato tácito. O valor concedido – a atenção – passa ser então um investimento desperdiçado, uma dádiva oferecida sem a justa contrapartida.
A sensação que daí decorre assemelha-se àquela descrita por Epicuro ao tratar das falsas expectativas – um desconforto nascido do descompasso entre o esperado e o obtido. Como afirmaria o filósofo do jardim, “a dor da alma é mais grave que a do corpo”, e poucas dores são tão agudas quanto aquela de perceber-se ludibriado após um gesto de confiança.
Do mal-estar produzido, sentimento este que acomete aquele cuja atenção foi conquistada sob falsa promessa manifesta-se de modo peculiar. A percepção de que o próprio tempo de vida, irrecuperável em sua natureza, foi despendido em vão.
Tal sentimento guarda semelhança com aquilo que os estoicos classificariam como uma perturbação da alma. Como observaria Marco Aurélio: “O homem desperdiça seu presente mínimo; e caso este lhe escape, sente saudade dele como se fosse grande”. A atenção, uma vez concedida e desperdiçada, se transforma em pesar e arrependimento.
Como os mercadores do ágora ateniense, os homens de nosso tempo negociam constantemente com o capital da atenção. Nas praças virtuais e nos encontros presenciais, a disputa por este recurso escasso intensifica-se. Aquele que conquista a atenção de muitos detém poder significativo; aquele que a desperdiça, perde tempo, confiança e boa-vontade.
É como se a atenção constituísse, em nossa era, uma forma de crédito social. Concedê-la é um ato de confiança; desperdiçá-la equivale a provocar uma pequena morte nas relações. Cada promessa não cumprida, cada expectativa frustrada, contribui para a inflação deste crédito, tornando suas futuras concessões mais custosas e reticentes.
Depreende-se, pois, que aquele que busca convencer outrem a conceder-lhe atenção assume sobre si uma responsabilidade ética fundamental. Como diria Kant, o homem deve ser sempre fim, jamais meio. Utilizar a atenção alheia como instrumento, sem entregar a contrapartida prometida, constitui forma de objetificação moral.
Esta responsabilidade torna-se ainda mais premente em uma era caracterizada pela abundância de estímulos e pela escassez de atenção genuína. O filósofo que busca a verdade, o orador que pleiteia o assentimento, o comerciante que solicita a consideração – todos estes devem reconhecer o valor daquilo que pedem e honrar o compromisso implícito em seu pedido.
A atenção, como valor fundamental da era contemporânea, merece ser tratada com a mesma reverência com que os antigos tratavam virtudes como a justiça ou a temperança. Seu dispêndio deve ser objeto de deliberação cuidadosa; sua conquista, motivo de gratidão e responsabilidade.
Quando prometemos algo em troca da atenção alheia e falhamos em cumprir tal promessa, contribuímos para o esvaziamento progressivo desta moeda crucial às relações humanas significativas. O sentimento negativo que daí resulta é o lamento por um valor genuíno desperdiçado – um valor que, como o tempo que o constitui, jamais poderá ser recuperado.
Como advertiria Sêneca: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas desperdiçamos muito”. E poucos desperdícios são tão perniciosos quanto o da atenção concedida sob promessas vãs.
Autor: Máquina Dourada