Máquina Dourada

Busque as Grandes Sabedorias!

Dos Planaltos do Espírito

A vida é permeada por confrontos inelutáveis, tanto com forças externas quanto com as potências internas do ser. Não há quem possa, vivendo em conformidade com a natureza, furtar-se à realidade dos embates que se impõem desde o primeiro suspiro até o derradeiro momento de consciência. Todavia, erram aqueles que veem nessa sabedoria um motivo de lamento, pois dela não emana a desgraça do homem, mas a possibilidade de sua grandeza.

Os terrenos onde se travam os embates da alma não são uniformes nem constantes, eles apresentam-se em diferentes altitudes do espírito, conforme a disposição e a sabedoria daquele que os habita. O homem comum, quando contempla o horizonte de sua existência, frequentemente avista apenas as planícies inferiores, onde se debatem as paixões mais básicas e os desejos mais imediatos. Nestes campos, os combates versam sobre a aquisição material, o reconhecimento passageiro e as satisfações transitórias.

Existe, entretanto, uma hierarquia dos terrenos conforme a sua elevação. E se os deuses nos concederam o dom da razão e a faculdade da escolha, foi para que pudéssemos, por meio do exercício de nossa virtude, elevar gradualmente o locus de nossos confrontos, transferindo-os de um terreno a outro, sempre em direção às alturas.

Da impossibilidade de evasão, e necessidade de elevação, é necessário reconhecer, com a clareza que convém ao filósofo, que jamais será possível ao homem evadir-se completamente dos embates que constituem a própria trama da vida. Os que assim buscam, entregando-se à inação ou à fuga, incorrem em grave erro, pois não compreendem que a ausência de confronto não é uma possibilidade oferecida aos mortais.

Donde se segue que a única via digna é aquela que não busca eliminar as batalhas, é necessário transformar a sua natureza pela elevação do terreno em que ocorrem. Pois tal como o guerreiro sábio escolhe com diligência o campo onde se dará o confronto, também o espírito prudente seleciona cuidadosamente as altitudes em que permitirá que se desenrolem os embates de sua vida.

Das duas naturezas dos espíritos elevados, é forçoso admitir a existência de dois gêneros distintos de almas que, embora diferentes em sua manifestação, compartilham a qualidade da elevação. O primeiro tipo é aquele que, colocado em terrenos inferiores, experimenta a melancolia profunda, pois percebe a discrepância entre a baixeza do ambiente e a altura natural de seu próprio ser. Estes são os que sofrem de uma tristeza que não é debilidade, antes um sinal de grandeza; indício de uma sensibilidade superior.

O segundo tipo é formado por aqueles que, reconhecendo a inadequação do terreno onde se encontram, mobilizam todas as suas forças para a transferência do campo de batalha. São os que não se contentam com a infelicidade de um confronto indigno de sua natureza e buscam, por meio do exercício da virtude e da sabedoria, transladar o embate para domínios mais elevados do espírito.

Ambos, contudo, são possuidores de almas elevadas, e aquele que hoje se entristece pela baixeza do terreno pode ser o mesmo que amanhã empreenderá a jornada de ascensão. Pois, como bem observou o sábio, a melancolia muitas vezes não é senão o clamor de um espírito excelso aprisionado em condições indignas de sua grandeza.

A concepção vulgar de vitória, que a identifica com a ausência de confrontos, revela-se, ao olhar da investigação filosófica, como uma compreensão inadequada da natureza humana. A vitória não consiste em eliminar as batalhas — o que seria impossível —, está em transferi-las continuamente para terrenos cada vez mais elevados, onde os objetivos em disputa e as armas empregadas sejam dignas da excelência humana.

Aquele que ontem lutava pela subsistência física, hoje pode disputar no campo da virtude; o que antes se debatia por reconhecimento social, agora pode empenhar-se na busca da sabedoria; o que anteriormente combatia para satisfazer os apetites, pode agora engajar-se na contemplação das verdades eternas.

Este movimento ascensional, que transfere os terrenos de confronto para altitudes sempre maiores, constitui o sentido da excelência humana e o caminho para aquela felicidade perfeita que os antigos denominavam eudaimonia — não a ausência de dificuldades, é mais ainda a qualidade superior dos desafios enfrentados.

Tu, que contemplas com apreensão os combates inevitáveis da existência! Não te detenhas na lamentação, nem te entregues à fantasia vã de uma vida sem confrontos. Reconhece, antes, a nobreza intrínseca à tua natureza, que te permite não só enfrentar as batalhas inevitáveis, é importante escolher conscientemente os terrenos em que elas se travarão.

Se hoje teus combates ocorrem em planícies que não fazem justiça à grandeza de tua alma, não desesperes, pois esse mesmo sentimento de inadequação é o primeiro indício de tua capacidade de ascensão. Toma-o não como motivo de desalento, apenas como impulso primeiro para o movimento de elevação.

A vida bem-sucedida não é aquela desprovida de embates, é aquela que gradualmente transfere seus conflitos para domínios cada vez mais dignos do potencial humano. Pois, como ensina a sabedoria antiga, a marca distintiva do homem superior é a qualidade transcendente das questões com que se ocupa.

Assim, enfrente com coragem os confrontos inevitáveis da vida, não te contentes com a estagnação nos terrenos inferiores. Busque, com a determinação própria daqueles que reconhecem sua verdadeira natureza, elevar constantemente o campo de tuas batalhas, até que os confrontos de tua vida versem não mais sobre o passageiro e o trivial, mas sobre o eterno e o sublime.

Autor: Máquina Dourada