Da natureza dúplice da aflição e da contaminação das almas, das distinções fundamentais sobre a tristeza, é mister adentrarmos ao núcleo das coisas que, parecendo idênticas em seu aspecto exterior, revelam-se, sob o olhar da razão, fundamentalmente opostas em sua essência. Pois assim ocorre com as formas de pesar que acometem as almas dos homens: não partilham todas elas da mesma natureza, tampouco provêm da mesma fonte, e decerto não produzem os mesmos frutos quando amadurecem no espírito daqueles que as abrigam.
Afigura-se-nos evidente que, ao examinarmos a miríade de aflições que perturbam o ânimo humano, devemos discernir entre aquela que é digna de respeito, emanada de causas elevadas e dotada de nobreza espiritual, e aquela outra, nascida da mesquinharia e que, à semelhança de um parasita, nutre-se da energia vital do hospedeiro para depois propagar-se aos demais, como uma peste que avança sobre uma cidade desprovida de muralhas.
Pois assim como a virtude não se define simplesmente por seus atos, mas pela disposição interior que os engendra, também a tristeza não pode ser julgada apenas por sua aparência exterior – o semblante abatido, o passo vacilante, o olhar que se furta ao encontro de outrem – mas deve ser avaliada conforme sua origem e propósito. Afinal, não é a mesma coisa o pesar que se origina da contemplação da injustiça no mundo e aquele que brota do orgulho ferido ou da inveja latente.
Da tristeza que emana de causas elevadas, consideremos primeiramente aquela espécie que nasce de fontes sublimes, tal como a água cristalina que jorra de mananciais nas alturas. Esta encontra sua gênese na compreensão das grandes verdades do universo, na percepção da distância entre o ideal e o real, ou no reconhecimento da finitude inerente à condição humana. Tal sentimento assemelha-se à que acometeu os grandes poetas e filósofos quando, ao contemplarem a perfeição das formas eternas, vislumbraram a imperfeição intrínseca ao mundo terreno.
Esta tristeza é aquela que, longe de enfraquecer, fortalece o espírito; longe de isolar, aproxima o homem de seus semelhantes através de uma compreensão mais profunda da condição que a todos irmanam. O homem tocado por esta melancolia não busca contaminar outros com seu estado, mas transforma seu pesar em ação virtuosa, em arte sublime ou em pensamento elevado.
Não seria exagero afirmar que toda grande obra humana germinou, em algum momento, de uma semente de tristeza nobre – pois é justamente na tensão entre o que é e o que poderia ser que habita o impulso criador. Uma tal aflição não é simples debilidade da alma, é o reconhecimento de sua potência ainda não plenamente realizada.
Da tristeza que nasce da mesquinharia e perversão, existe, contudo, uma outra forma de pesar, cuja natureza em tudo se opõe à primeira, embora com ela possa confundir-se aos olhos do observador desatento. É aquela que brota não da elevação, mas da baixeza; não da compreensão, mas da ignorância; não do amor à virtude, mas da rendição ao vício.
O homem acometido por esta espécie de aflição não sofre por causas que transcendem sua pequenez, mas precisamente por estar encarcerado nela. Seu pesar nasce de ver frustrados seus desejos mesquinhos, de perceber limitado seu poder de subjugar outros, de encontrar obstáculos à satisfação de seus impulsos mais baixos.
E eis a peculiaridade mais perniciosa desta classe de sentimento: à maneira de um veneno insidioso, ela não se contenta em corromper apenas a alma que a abriga, busca propagar-se, contaminar outras almas, expandir seu domínio. Por que razão? Porque o homem dominado por esta forma de tristeza encontra alívio momentâneo ao perceber o sofrimento alheio – não por compaixão, mas por inveja. É como se, incapaz de elevar-se, buscasse rebaixar todos ao seu nível, para assim mitigar o desconforto de sua própria condição.
Da propagação dessa classe de tristeza, como instrumento de enfraquecimento, observai com que astúcia age esse homem acometido pela tristeza mesquinha! Inicialmente, apresenta-se como vítima de circunstâncias inexoráveis, como um ser particularmente sensível aos infortúnios da vida. Dissimula sua verdadeira motivação, que é tão somente o desagrado consigo mesmo e a inveja que nutre por aqueles que logram transcender suas limitações sem sucumbir ao pesar improdutivo.
Em seguida, empenha-se metodicamente em debilitar as defesas daqueles que o cercam. Como um sofista que distorce argumentos para confundir seu oponente, ele apresenta a realidade sob uma visão deliberadamente sombria, omitindo tudo que poderia inspirar esperança ou motivar a ação. Contagia o ambiente com seu desalento, não por uma inclinação natural, mas por uma escolha consciente – ainda que, muitas vezes, não plenamente reconhecida por ele próprio.
Sua maior habilidade está em fazer com que seu estado de espírito pareça não apenas justificado, mas inelutável. Se outro homem demonstra vigor ou entusiasmo, este é imediatamente interpretado como ingenuidade ou ignorância. Assim, toda virtude é redefinida como vício; toda esperança, como ilusão; toda alegria, como escapismo.
E o mais pernicioso, quando algum de seus interlocutores logra algum êxito ou demonstra virtude em grau elevado, isto o aflige profundamente. Pois sua melancolia não é uma reação à injustiça do mundo, é à justiça que ocasionalmente nele se manifesta – quando o mérito é recompensado e o vício, punido.
Da necessidade de discernimento e resistência, é imperioso, portanto, que desenvolvamos a capacidade de distinguir entre essas duas formas de aflição. Uma é digna de nossa empatia e, por vezes, de nossa reverência; a outra merece nossa resistência e, quando necessário, nosso distanciamento deliberado.
Como proceder, então, diante daquele que busca contaminar-nos com sua infelicidade mesquinha? É preciso, primeiramente, reconhecê-la pelo que realmente é: não uma resposta natural às circunstâncias adversas, mas uma estratégia – ainda que inconsciente – para nivelar por baixo, para impedir que outros realizem o que ele próprio se julga incapaz de realizar.
Em seguida, devemos fortalecer as defesas de nossa alma, não através da insensibilidade, mas através da clareza de propósito. Assim como o médico não permite que o veneno de uma ferida se espalhe pelo corpo, também nós não devemos permitir que a tristeza mesquinha infecte nosso espírito.
Por fim, em vez de reagir com hostilidade – o que apenas confirmaria a visão pessimista que esse homem tem do mundo –, é preferível responder com firmeza serena. Não se trata de negar a existência de males e injustiças, mas de recusar-se a fazer deles o centro de nossa vida; não se trata de ignorar os aspectos sombrios da realidade, mas de insistir em que há também luz, e que esta luz, por mais rarefeito que pareça, pode ser ampliada através do esforço virtuoso.
Assim, pois, conclui-se que não é toda forma de tristeza que merece nossa compreensão e empatia. Há aquela que nasce da grandeza e conduz a ela; e há aquela outra que nasce da pequenez e perpetua esta condição.
A primeira, mesmo quando intensa, nunca destrói a capacidade de reconhecer o bem e a beleza onde quer que se manifestem; ao contrário, aguça esta sensibilidade. A segunda, por sua vez, embota gradualmente esta capacidade, até que seu portador se torna incapaz de perceber qualquer bem no mundo ou em seus semelhantes.
Uma origina-se no amor à verdade, ainda que esta verdade seja inicialmente dolorosa; a outra, no apego obstinado à mentira, especialmente àquela que nos exime da responsabilidade por nossa própria condição.
Uma é a tristeza do Homem diante do corpo falecido de um Amigo – profunda, arrebatadora, mas prenhe de possibilidades redentoras; a outra é a tristeza de Tersites – mesquinha, nascida da inveja, não do amor.
Que possamos, por conseguinte, cultivar a sabedoria necessária para reconhecer as diferenças entre estas duas formas de aflição. Ao fazê-lo, não apenas preservaremos nossa própria integridade espiritual, mas também contribuiremos para a constituição de uma comunidade onde a tristeza, quando inevitável, seja ao menos digna da natureza elevada que nos foi concedida.
Autor: Máquina Dourada