As descobertas humanas, em sua trajetória intelectual, transforma-se em enfadonha e árdua peregrinação quando interrompida pelos sátiros da presunção. Estes, ávidos por regurgitar conhecimentos já metabolizados pelo viajante, que já percorreu os caminhos: (A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, K, L, M, N, O, e P) E que agora está descobrindo e explorando o caminho Q, levantam-se como esfinges anacrônicas, exigindo que se decifrem enigmas cujas respostas jazem há eras gravadas em nossa psique. A cada refluxo ao Caminho C, onde já se plantou estandartes de domínio, dilui-se o néctar do progresso em libações à arrogância alheia.
Refiro-me àqueles que interrompem o caminho de uma pessoa e ficam por muito tempo querendo ensinar-lhe algo que, na verdade, ela já sabia há muito tempo. Nesse labirinto da erudição redundante, a trajetória do autodidata — do alfabeto primordial (A, B, C…) ao criptograma quântico (Q) — é um rito de passagem solitário, profanado por mendigos de relevância. Estes, confinados aos umbrais do elementar, confundem itinerários com hierarquias, observam o argonauta em sua navegação estelar e, incapazes de ascender além do tríplice portal (A, B, C), urgem-no a rebaixar-se em autoflagelação cognitiva. Exigem que o cosmógrafo prove, ad nauseam, que domina a bússola quando já desbrava sextantes galácticos.
A condição humana, em sua ânsia por hegemonia gnoseológica, transforma-se em paródia trágica quando a redundância intercepta o peregrino em sua travessia rumo ao inexplorado. São os sofistas do déjà-savoir, emissários da tautologia, que irrompem no ágora mental portando tochas apagadas, intentando iluminar veredas já mapeadas pelo viajante. Sua pedagogia não é senão necrofilia intelectual, eles exumam cadáveres de conceitos, mumificados em sarcófagos de autoengano, e os oferecem como relíquias a quem já ultrapassou aqueles panteões.
Nesse autodidatismo, os mímicos da didascália insistem em replicar passos cuja coreografia já foi feita em músculo mnêmico. Sua insistência em ensinar a nadar em poças — quando já se navegou oceanos — não é senão ritual narcísico. O uniforme de palhaço, então, veste-se como armadura hermenêutica, só a pantomima do déjà-vu intelectual os fazem recuar.
Para silenciar os cães de guarda do óbvio, é preciso encenar a pantomima da ignorância superada. Vestir a loriga do histrião, entoar em glossolalia invertida os mantras que há eras se transmutaram em silêncio operativo. Cada regresso a C é um sacrifício de Chronos, ofertam-se horas de descoberta no altar da vaidade alheia, sangrando o futuro para mumificar o passado.
Enquanto não demonstrar que já sabe aquilo que o miserável está tentando ensinar, ele vai se achar o único que sabe aquilo. Esse sentimento de ser único lhe dará forças para continuar infernizando quem é único. Quando a vítima da ignorância demonstra que já sabe a matéria que o idiota insiste ensinar, desaparece então grande parte da força do maldito. Ele por perceber não ser único, perderá muita força.
Mapear o território Q exige navegação estelar, mas os ciclopes do caminho A-C — monoculares em sua visão de mundo — lançam redes de trivialidades, arrastando o argonauta de volta a ensejas já mapeadas. Cada regresso a C é eclipse voluntário, apaga-se o Sol da descoberta para acender uma lanterna.
Quantos Q, quantos O — estações intermediárias na odisseia do saber — foram convertidos em nós cegos por esses carrascos da curiosidade? Cada interrupção é uma cesariana prematura, abortam-se gestações de insight para exibir fetos de conhecimento já desmamados.
Os sofistas circunstanciais operam sob a égide de um equívoco metafísico, crêem que todo conhecimento é terra nullius, jamais reivindicada. Suas lições — eco de aulas autoimunes — exigem contra-rituais, exumar diplomas mentais, mostrar cicatrizes de batalhas intelectuais antigas. Só assim, ao colocar um espelho na frente da Medusa, para refletir seu próprio anacronismo, eles petrificam-se em silêncio.
Nessa taxonomia dos obstáculos vanidosos, o Homo sapiens var. didactus interruptus, subespécie que confunde itinerários com hierarquias. Seu modus operandi? Arrancar ornitópters de Da Vinci em pleno voo teórico, demandando testes em moinhos de vento. A solução é antropologia reversa, exibir o fêmur fossilizado de saberes passados, reduzindo-os a curiosidades museológicas. Assim, sua fúria pedagógica transforma-se em poeira de arquivo.
Nesse diálogo do retrocesso imposto, Hegel desconhecia esta síntese perversa: Tese (o novo caminho Q), Antítese (o inquisidor do C), Síntese (o exílio temporário em C para aniquilar o diálogo alheio). Cada detour é Bildungsroman truncado — educação não pelo ascenso, mas pela reencenação do passado como exorcismo. O preço? O relógio de arena da inovação vaza areia para alimentar ampulhetas alheias.
Na fenomenologia do importuno erudito, os fantasmas de Husserl assombram com epoché invertida, em vez de suspender pressupostos, impõem-nos como dogma. “Já conheces C?” — perguntam, confundindo horizontes de conhecimento com estações de trem abandonadas. A resposta é performance fenomenológica, reencenar C como pantáculo, fazendo seu espectro dissolver-se na luz crua da evidência.
Durante esse epistemicídio recíproco na guerra pelo monopólio do léxico, os mercadores de conceitos obsoletos tentam colonizar mentes alheias com mapas desatualizados. Defender-se exige guerrilha semiótica, hastear bandeiras em territórios cognitivos conquistados, forçando-os a reconhecer que não há glória em vender bússolas para foguetes que traçaram novas rotas astrológicas. Tirar o uniforme de cientista para vestir a roupa de palhaço faz com que o palhaço, que “não sabia o que o Sábio sabia assobiar”, passe agora a saber que o Sábio também sabe ser palhaço. Um Sábio deve também saber ser palhaço, porque o que mais há no mundo são eles, os palhaços. Dentro das classes saudáveis do humor, um bom comediante é também considerado um bom filósofo.
O epítome da tragédia está na metamorfose vestimentar, em despir a túnica do hermeneuta — feito com conjectura e rigor metodológico — para envergar o trapos do bufão. Fazê-lo não por mimese, mas como exorcismo ritual, somente ao espelhar a gramática do trivial em sua própria língua, o demônio da intromissão dissipa-se, evaporando-se no ácido da evidência.
E nesse regresso forçado, o Ser-eu-no-mundo-Q é projeto lançado ao mar, mas os náufragos do A-C agarram-se a ele como tábua salva-vidas, exigindo que se prove não ser Ícaro. A cada mergulho de resgate em águas conhecidas, perde-se um fragmento do futuro nas mandíbulas de Chronos. Tornar-se cartógrafo de si exige afiar a pena como espada, escrever sobre C em sangue intelectual para selar pactos de não-intervenção.
Os epígonos de Thoth — deuses caídos da enciclopédia — exigem adoração em altares de conceitos ultrapassados. Seu poder? Alimenta-se da ilusão de exclusividade. O truque é profanar seus templos, revelar que já se decifraram suas escritas pictográficas, e que seus oráculos são reverberações resquícias de suas próprias vozes. Então, despojados do manto de Ísis que teciam, transformam-se em estátuas de sal no deserto do progresso.
Assim caminha a humanidade, enquanto titãs menores insistem em apontar-lhe atalhos para o vale que já abandonou. A sabedoria, afinal, talvez seja aprender a deixar cicatrizes visíveis — marcas rupestres na pele do tempo — para que os caçadores de diplomas imaginários encontrem, por si mesmos, os epitáfios de sua própria irrelevância.
Autor: Máquina Dourada