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O Contágio Espiritual dos Sentimentos Turbulentos

Considerando que as paixões da alma, dentre as quais se inclui o desespero, figuram entre as mais turbulentas e obscuras, cumpre investigar sua natureza, origem e os modos pelos quais se comunicam de um ser a outro. Pois assim como a alma é princípio de vida e movimento, também é fonte de todas as afecções que perturbam a ordem natural do animado. Dentre tais afecções, o desespero ocupa lugar singular, pois enquanto outras paixões se limitam a alterar temporariamente a disposição da alma, este corrompe-lhe a essência, convertendo a potência de agir em impotência.

É necessário, portanto, delimitar primeiramente o que seja o desespero: se é uma paixão meramente acidental, produto de circunstâncias externas, ou se radica na própria substância da alma. Como dissemos em tratados anteriores, a alma é enteléquia do corpo, forma que atualiza sua potência vital. Donde, se o desespero advém de desarmonia entre as faculdades — nutritiva, sensitiva, intelectiva —, sua origem está na incapacidade de harmonizar o apetite com a razão. Contudo, há os que atribuem tal paixão à influência de almas alheias, como se houvesse transmissão de humores através de contágio espiritual.

Afirmam alguns, seguindo a doutrina dos estoicos, que o desespero é como fogo que, uma vez aceso em uma alma, propaga-se às vizinhas pelo simples contato da convivência. Tal concepção, porém, peca por ignorar a natureza impassível do intelecto, que, sendo forma pura, não pode ser corrompido por influxos externos, salvo se voluntariamente se inclina a acolhê-los. Pois assim como a visão não vê sem luz, tampouco a alma recebe paixões sem consentir em sua matéria imaginativa.

Ora, o desespero, enquanto fenômeno sensível, manifesta-se através de gestos, palavras e ações desordenadas, que impressionam os sentidos como sombras projetadas na caverna de Platão. Cabe, porém, ao intelecto prático discernir se tais sombras são realidade ou ilusão, e à vontade ordenada resistir à sedução do caos. Pois o homem que permite à confusão do próximo adentrar seu centro assemelha-se ao navegante que, vendo tempestade no horizonte, deliberadamente dirige seu barco para o turbilhão.

É próprio da natureza humana buscar a comunhão, seja na alegria, seja na dor. Contudo, a compaixão mal dirigida converte-se em vício quando, ao invés de erguer o caído, o compadecido deixa-se arrastar ao mesmo penhasco. Igual os rios, as águas — e as almas — estão em perpétuo fluxo. Donde, importa questionar por qual mecanismo uma alma, sendo forma substancial indivisível, permitiria que paixões alheias a dominassem?

A resposta jaz na distinção entre pathos (paixão sofrida) e ethos (caráter deliberado). O desespero, enquanto pathos, é movimento involuntário, como o tremor diante do frio. Já o ethos é hábito cultivado, fruto de repetição racional. Assim, aquele que, por fraqueza da vontade, absorve o desespero alheio como esponja absorve água, confunde a potência passiva da alma com sua atividade nobre. Pois a alma sábia, tal qual o fogo de Anaxágoras, governa sem ser governada, transformando as trevas alheias em luz própria através do filtro da razão.

Não basta, porém, condenar a transmissão do desespero; cumpre prescrever o antídoto. Como a medicina restaura o equilíbrio dos humores, a filosofia restaura a harmonia da alma através de três remédios:

A Razão Discursiva: Que distingue o contingente do necessário, mostrando que o desespero, ainda que real, não é eterno.

A Vontade Ordenada: Que, tal qual o piloto de um navio, mantém o timão firme mesmo sob ondas fortes.

A Imaginação Purificada: Que, em vez de reproduzir imagens de ruína, cria formas de beleza e esperança.

Como bem notara Estagirita: “A virtude da alma não está em evitar as paixões, mas em governá-las”. Assim, não permitas que o desespero, qual vento impetuoso, arranque as folhas de tua árvore; antes, enraíza-te na terra firme da prudência, para que teus galhos, ainda que sacudidos, jamais se quebrem.

A alma que resiste à invasão do desespero estranho assemelha-se ao éter celeste: incorruptível, impassível, transcendente. Pois, assim como o fogo não se umedece pela água que evapora, tampouco o sábio se corrompe pelas lágrimas que secam. Guardai, pois, vossa essência como o aurífice guarda o ouro — não pelo medo de perdê-lo, mas pela certeza de seu valor imarcescível.

Autor: Máquina Dourada