A insegurança que se origina diante do desconhecido, qual orvalho matinal, brisa furtiva entre as ramagens, não é filho da incapacidade, e nem retrato da insuficiência, mas uma resposta natural à novidade. A apreensão que sentimos quando nos deparamos com situações inéditas é um mecanismo de defesa que visa proteger-nos das intempéries do desconforto e das vicissitudes do risco, um arcabouço instintivo, um mecanismo ancestral que busca resguardar-nos. Esse frêmito que trespassa o ser ao avistar o ignoto não se configura como um libelo contra nossas aptidões, não é se não um testemunho primal, um sussurro que busca abrigar-nos das arestas do imprevisto e das tormentas da incerteza. No entanto, é importante compreender que tal temor não é um indicativo de limitação, mas sim uma oportunidade, uma janela entreaberta para o crescimento e aprendizado. O temor que brota não é um signo de fragilidade.
Ao enfrentar o novo, é comum sentir-se inseguro e temeroso, pois o desconhecido sempre desperta uma certa apreensão em nosso íntimo. No entanto, é importante não confundir essa insegurança com a incapacidade de superar os desafios que se apresentam. A novidade, por si só, já é suficiente para gerar medo, independentemente de nossa habilidade em lidar com ela.
O medo, esse vulto ancestral que vagueia nas bordas do pensamento, esse espectro imemorial que ginga nas franjas de nossa consciência, é uma entidade misteriosa, pois há nele uma presença ambígua. Ele é como um guardião vigilante, sentinela atenta, alertando-nos para os perigos que o desconhecido pode esconder, mas também como um tirano sutil, que, se lhe cedemos o cetro, confina-nos aos grilhões da estagnação. O medo nos adverte dos precipícios que o novo pode esconder, mas também qual demiurgo astuto, que, caso lhe entreguemos as rédeas, nos encarcera nos liames da imobilidade. Diante do novo, e perante o inexplorado — seja ele um ofício que se inicia, uma terra ignota a ser desbravada ou um desafio que nos convoca à superação, seja ele uma arte a ser forjada, um domínio a ser conquistado ou um prélio que nos incita à elevação —, ele murmura interrogações, o medo sussurra-nos dúvidas, fracassos ainda não nascidos, revezes ainda não gestados. Mas seria ele um oráculo infalível de nossa derrota? Um profeta de nosso ocaso? Não, antes um emissário daquilo que nos desafia a superar, que nos convoca a ultrapassar os confins de nós mesmos.
O medo tem a natureza polifônica e polissêmica, para compreender esse sentimento, é mister adentrar sua natureza multifacetada. O medo é uma sinfonia primal, uma antiga cantiga, entoada em resposta ao vislumbre de um perigo, concreto ou evanescente, cujas notas ressoam em resposta à percepção de uma ameaça, seja ela tangível ou etérea. Quando o novo se apresenta, o desconhecido se drapeja, e o temor floresce. Não obstante, tal emoção, não se limita a ser um fardo que nos acorrenta, não é apenas um jugo a nos prender; pode ser também um indício de que cruzamos os limiares de nosso próprio alargamento, um sinal de que estamos a pisar os umbrais de nossa própria expansão. Pois é no confronto com o ignoto, na refrega com o insondável, que o ânimo se forja, o espírito se agigante e a alma se tempera.
Imagine o navegante que, prestes a lançar suas naus às vagas ignotas do comércio, é assaltado por augúrios de tormenta e perda. Ou o mercador que, às vésperas de lançar um empreendimento ao mar tempestuoso do mercado, é acometido por visões de naufrágio e rejeição. Reflita ainda sobre o aprendiz que, ao ingressar nos umbrais de um saber novo, sente o peito trepidar com o pavor de não se erguer à altura dos mestres, ou no jovem escolástico que, ao cruzar os portais de uma nova academia, sente o coração pulsar com o receio de não encontrar seu lugar entre os sábios. Em cada uma desses quadros, o medo é um companheiro fiel, mas jamais um decreto de insuficiência, o medo é um satélite constante, mas nunca um édito de inaptidão. Trata-se, antes, do limiar de uma jornada Homérica que, se palmilhada com arrojo, descortina a perícia, a têmpera e o desabrochar das potências ocultas, é o prelúdio de uma jornada que, se trilhada com ousadia, conduz à mestria, à resiliência e ao florescer do potencial latente.
Como, então, converter esse fantasma em um confederado? Esse espectro em um aliado? Como domar o Invisível? Há sendas a percorrer e trilhas a seguir. A preparação, qual alicerce de uma cidadela, fundamento de um baluarte, é a primeira: Armar-se de conhecimento e foresight extingue os mormaços do ignoto, conferindo-nos firmeza ante o que está por vir. Munir-se de sapiência e presciência desfaz as lufadas do porvir, outorgando-nos solidez ante o que se avizinha. A visualização, por sua vez, é um importante exercício mental, ao antevermos o triunfo sobre os obstáculos, e divisarmos o êxito sobre as barreiras, construímos uma ponte entre o agora e o porvir, robustecendo nossa confiança, que une o presente ao vindouro, fortalecendo nossa intrepidez. A recepção do medo como traço do humano — não como mácula, mas como testemunho de nossa vitalidade — é um gesto de lucidez. E, por fim, a ação, em passos miúdos ou arremetidas intrépidas, é o bálsamo que liquefaz a inércia da paralisia, pois o movimento é o antídoto soberano contra o torpor que o temor impõe, o avanço é o remédio contra o entorpecimento que o pavor instaura. A chave para superar esse medo está na compreensão de que ele é uma resposta natural à exposição a algo novo e desconhecido. Em vez de permitir que o medo nos domine e nos impeça de avançar, devemos abraçá-lo como uma oportunidade de expandir nossos horizontes e testar nossas habilidades. A cada experiência nova que enfrentamos, temos a chance de aprender, crescer e nos fortalecer.
Um hino ao desconhecido, assim, quando o medo vier, qual trovão anunciando a tempestade, antes do clarão que prenuncia o aguaceiro, não o tema como juiz de sua alma. Veja-o como um aceno, uma convocação para que valse com o novo, para que tinja o vácuo com os matizes fulgurantes de sua audácia. Confie na amplidão de suas capacidades, pois elas são um oceano mais profundo do que o medo pode sondar. Acolha o desconhecido como uma partitura em branco, pronta para ser preenchida com a melodia de sua jornada. E, ao fazê-lo, descubra que é na superação desse temor que se revelam as dimensões colossais de seu ser.
Não se deixe abater pelo medo que surge diante do novo, não se deixe curvar pelo pavor que o novo evoca, pois ele não é um retrato da sua insuficiência e nem da sua incapacidade, mas sim uma resposta natural à novidade. Ele não espelha sua carência, mas ressoa como um chamado à ascensão. Acorde para o fato de que você é capaz de enfrentar e superar qualquer desafio, independentemente de sua familiaridade com a situação. Que o desconhecido seja seu mestre, não seu carrasco; que cada passo trêmulo rumo ao novo seja uma oferenda à sua própria grandeza. Que o ignoto seja seu preceptor, não seu tirano; que cada avanço hesitante rumo ao inexplorado seja um louvor à sua própria magnitude. Abrace o desconhecido como uma oportunidade de crescimento e permita-se explorar os limites de suas habilidades. Somente assim poderá realizar todo o seu potencial e vivenciar a plenitude de sua existência. Pois é somente atravessando as paralisias do medo que você alcançará a plenitude, tocará as inteirezas de sua existência, será então coroado pela vitória de ter ousado ser mais, e cingido pela glória de ter acreditado no seu potencial.
Autor: Máquina Dourada