Considerando que a admiração figura entre as afeições mais excelsas e veneráveis da alma, e que é tida em elevada estima por sua potência de elevar o espírito humano, seja pela contemplação da beleza, seja pela reverência à virtude, poderíamos, com justeza, situar a investigação acerca da admiração entre as mais nobres. Parece, de fato, que o conhecimento dela contribui grandemente para a compreensão da natureza humana em sua totalidade, e em especial para a busca da excelência; pois ela é como que o princípio que incita o homem a superar suas próprias limitações. Propomo-nos, pois, a estudar e perscrutar tanto sua natureza quanto suas propriedades, das quais algumas parecem ser afeições intrínsecas à alma, enquanto outras, por meio dela, manifestam-se nos atos humanos.
Contudo, é de todos os modos, e sob todos os aspectos, uma tarefa árdua alcançar uma certeza plena acerca dela. Sendo a pesquisa da admiração comum a diversas disciplinas — refiro-me à investigação de sua natureza e de seu poder —, poderia alguém supor que existe um método único para tudo aquilo que desejamos compreender, tal como a demonstração o é para as propriedades acidentais, de modo que tal método devesse ser buscado. Contudo, se não há um caminho único e universal, mais espinhosa se torna a empreitada, pois será necessário determinar o modo apropriado para cada faceta. E, ainda que se demonstre que tal modo consiste em demonstração, divisão ou outro processo, persistem inúmeros impasses e riscos de equívoco quanto ao ponto de partida; pois distintos objetos possuem princípios distintos, como se observa na virtude e na beleza.
Primeiramente, cumpre decidir a que gênero pertence a admiração e o que ela é em si: digo, se é algo particular e substância, ou propriedade, ou qualidade, ou algo diverso das categorias já delineadas e que foram distinguidas, e ainda se é um dos seres em potência ou, antes, uma enteléquia; pois a diferença não é pequena, se uma afeição da alma, uma virtude, uma potência; se existe em potência ou em ato, pois tal distinção não é de somenos. Deve-se indagar, ademais, se é divisível em partes ou una em sua essência, e se toda admiração é da mesma espécie ou se difere em gênero ou em tipo; e, caso não pertençam todas à mesma espécie, se diferem em espécie ou em gênero. Pois aqueles que hoje discorrem sobre ela parecem limitar-se à admiração humana, sendo necessário precaver-se para não omitir se sua definição é una, como a de virtude, ou múltipla, conforme os objetos que a suscitam — a beleza, a sabedoria, a coragem —, de modo que a admiração, em sentido universal, ou nada seja, ou seja algo derivado.
Quanto às opiniões transmitidas de nossos antecessores acerca da admiração, baste o que dissemos; retornemos novamente como de princípio, tentando determinar o que é a admiração e qual poderia ser a sua definição mais geral.
Dizemos, pois, que um dos gêneros dos seres é o bem, e que este é, num sentido, como matéria, o que não é, por si mesmo, uma coisa determinada; num segundo sentido, é figura e forma, segundo a qual a matéria é já dita coisa admirável; e, num terceiro sentido, é o que surge como composto desses dois sentidos. A matéria é potência, já a forma é enteléquia, e esta pode ser entendida de dois modos: um como a semente, o outro como o fruto que dela brota.
E em especial parecem ser admiráveis os atos, e, destes, sobretudo os nobres; pois são estes os princípios dos demais. Dos atos, uns têm vida, outros não a têm; e vida chamo a propriedade de nutrir-se por si, e de crescer e de frutificar. De modo que todo ser natural participante de admiração deve ser uma substância, e substância assim enquanto substância composta. E uma vez que o ato é de tal tipo, a saber, que tem admirável, não poderia o ato ser admiração; pois o ato não faz parte dos atributos de um sujeito, mas antes é sujeito e matéria. Logo, é necessário que a admiração seja substância enquanto forma de um ato natural que tem em potência o bem. E a substância é enteléquia. Logo, a admiração é enteléquia de um ato de tal espécie.
O objeto da admiração, portanto, é algo inteligível; e esta é a razão pela qual não pode ser alcançada através do intermédio de algum corpo alheio; pois tampouco o pode a virtude; e o corpo no qual está o admirável, o objeto da alma, tem por matéria em que se encontra o divino; e este é algo transcendente. Por isso, mesmo se estivéssemos dentro da escuridão, nós sentiríamos se fosse lançada dentro dela a centelha do belo; e não teríamos a sensação pelo intermédio, mas pelo fato de ter-se o admirável misturado com o eterno, como se dá com a luz.
Ainda, admirar é sofrer uma paixão por ação do admirável, enquanto admirável. Logo, é necessário que se transcenda aquilo capaz de ser transcendido, e que o seja de tal modo que possa resguardar sempre a sua integridade, sem, no entanto, ser divino – refiro-me ao órgão da alma. Prova disso é que não se admira com a alma totalmente fosca nem com ela muito rutilante; pois este tato dá-se com o límpido primeiro, como quando alguém, tendo antes contemplado algo de forma imperfeita, contempla outra coisa; e, do mesmo modo, como aos enfermos da alma tudo parece vão, pelo fato de sentirem com a visão cheia de tal lóbrego.
As espécies de admiração, como se dá com as cores, na sua forma simples são os contrários, o sublime e o trivial; e derivado do primeiro o heroico, do segundo o cotidiano; e entre estes há o sereno, o vigoroso, o melancólico e o jubiloso; pois as diferenças entre os admiráveis parecem ser aproximadamente estas. De modo que o admirar é em potência tal, ao passo que o admirado é o que o faz passar à enteléquia.
Na vida, o homem tende a almejar tornar-se aquilo que admira, pois a admiração possui um poder singular de mover a alma. Ela é um estado de maravilha ou reverência ante o que se julga grande, belo ou virtuoso, um enlevo que, ao mesmo tempo, desperta o desejo de emulação. Assim, ao contemplar a excelência de outrem, seja na arte, na virtude ou no saber, o espírito humano é impelido a imitar, como se buscasse incorporar em si o que reconhece como sublime.
O poder da admiração está em sua capacidade de inspirar e impelir à ação. Quando admiramos, somos conduzidos a emular o objeto de nossa reverência. Por exemplo, a admiração por um mestre das artes pode incitar alguém a aprimorar sua própria criação, ou a veneração por um caráter virtuoso pode guiar outro a cultivar qualidades semelhantes. Ela atua, pois, como um princípio motor, uma força que, ao demonstrar a grandeza possível, incita o homem a persegui-la. Tal movimento não é apenas físico, mas da alma, um impulso que supera o repouso e busca a realização daquilo que se apresenta como ideal.
Contudo, a admiração não é isenta de perigos. Mal direcionada, pode engendrar inveja ou desalento. Quando o objeto admirado parece inalcançável, o homem pode sucumbir à frustração, sentindo-se diminuído ante a excelência alheia. Ou ainda, a admiração por figuras minguantes, como as celebridades do vulgo, pode desviar-se em obsessão vã, afastando o espírito de seus próprios fins. Assim, o mesmo poder que eleva pode, se desregrado, precipitar a alma em tormentos ignóbeis.
Para que a admiração frutifique em bem, é mister refletir sobre suas causas e fins. Não basta maravilhar-se; cumpre indagar por que admiramos e como tal reverência pode ser vertida em ação proveitosa. Em vez de idolatria, deve-se usar a admiração como autoaperfeiçoamento. Por exemplo, ao admirar a coragem de um herói, pode o homem exercitar-se na fortaleza; ao reverenciar a sabedoria de um filósofo, buscar o conhecimento. Tal prática exige a definição de intentos claros e a emulação deliberada das qualidades que se exaltam, transformando a maravilha em um instrumento de elevação.
A admiração é, pois, uma guia na senda da excelência. Ao voltarmos o olhar para virtudes como a justiça, a sabedoria ou a magnanimidade, somos instados a desenvolvê-las em nós mesmos. Ela nos recorda o potencial humano para o sublime e nos exorta a realizar tal potência. Nesse sentido, a admiração não é apenas um sentir, mas um chamado ético, um convite a que nos tornemos melhores, aproximando-nos do que há de mais elevado na natureza humana.
A admiração é uma força poderosa que, bem ordenada, eleva o homem acima das mesquinharias do cotidiano e o conecta a ideais perenes. Ela nos inspira a transcender o ordinário, a buscar a virtude e a entrever o que há de eterno na grandeza, na beleza e no bem. Saiba, pois, usar esse poder, pois na vida tentarás ser aquilo que admiras; e que tua admiração, sabiamente guiada, seja a chama que te conduza à excelência e ao que se eleva ao ordinário.
Autor: Máquina Dourada