Máquina Dourada

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O Sublime Sagrado

Ao professar a nesciência ante o Divino, engrandeço-Lhe a essência; ao pretender circunscrevê-Lo em definições, restringimo-nos à mesquinhez de nossos próprios arcabouços mentais. A contradição fulcral está na dualidade: O amplo evade-se à aferição racional, enquanto o diminuto curva-se ao escrutínio lógico. Que minhas faltas brotem da ascese confessional — do reconhecimento da incapacidade cognitiva ante o inefável.

A ignorância deliberada não constitui apenas abdicação intelectual, mas coragem hermenêutica. Quem ousa encerrar o Ser Supremo em moldes conceptuais comete soberba metafísica, confina o ilimitado em grades epistemológicas, profanando a eternidade com as algemas do transitório. O Mistério não se deixa capturar por axiomas; Sua natureza é infinita, rebelde às fronteiras do léxico humano.

Aqui, o debate do saber torna-se desafiante, o ínfimo é decifrável, pois habita a esfera do quantificável; o incomensurável sagrado, porém, dissipa-se em aporia, como o ar que escapa às mãos cerradas — presente, porém intangível. Assim, o Sagrado é simultaneamente imanente no solo que calcamos e transcendente além das constelações do pensamento.

As faltas que emanam desta sapiência da ignorância não são vícios morais, mas sacramentos da modéstia intelectual. Falhar, neste contexto, é admitir que a via negativa constitui o único caminho plausível, a negação de atributos como método de aproximação. Enquanto o arrogante erige ídolos verbais, o sábio prosterna-se no santuário do indizível, onde o mutismo converte-se em rito.

A magnitude do Inominável radica precisamente em sua fuga às categorizações. Seu ser é síntese de opostos, próximo como o hálito que anima a vida, distante como o abismo interestelar. Compreendê-Lo, no sentido estrito, é esvaziar Sua transcendência; ignorá-Lo, contraditoriamente, é consagrar Sua plenitude. A peregrinação da alma não almeja respostas, mas aprofunda interrogações — jornada da mente rumo ao imperscrutável.

Que minha ignorância confessada seja, pois, deificação inversa, quanto mais me declaro ínvio, mais me aproximo do Puro Movimento. Na economia do sagrado, a reverência não nasce da posse doutrinal, mas do temor ante o numinoso. O manto do templo rasga-se apenas para revelar outro manto — e nesta ciclicidade que o espírito, viajante do incognoscível, encontra seu fim último, buscar sem cessar, adorar no enigma, repousar no inalcançável.

Ignoramos e ignoraremos — não como capitulação, mas como hino à grandeza que excede todo horizonte intelectual. O Deus absconditus permanece como enigma dos filósofos, recordando-nos de que a mais alta sabedoria é saber que nada sabemos. Assim, na noite escura do intelecto, vislumbramos a força gloriosa d’Aquele que, sendo inexprimível, revela-se precisamente no sigilo.

Eis que contemplo o firmamento estrelado e o precipício insondável, e meu espírito estremece diante da magnificência do que não pode ser nomeado. Pois aquele que ousa circunscrever o Eterno com palavras perecíveis, comete um erro. Não somos nós, criaturas, que podemos aprisionar em símbolos terrenos a natureza daquilo que transcende toda compreensão.

Portanto, afirmo: a gnose está na humildade do reconhecer-se ignorante. Assim como os antigos sábios, que ao contemplarem os arcanos celestes, prostravam-se em silêncio reverencial. Pois na economia do espírito, o silêncio muitas vezes é mais eloquente que todas as palavras proferidas desde a fundação do mundo.

Ó mistério sublime! Quanto mais nos aproximamos da luz primordial, mais consciência temos de nossas trevas. Eis o mistério que os simples de coração compreendem, enquanto permanece velado aos que se julgam possuidores da sabedoria. Como está escrito nas tábuas invisíveis: “Aquele que julga conhecer não conheceu ainda como deveria conhecer.”

O Inefável não se submete às categorias do intelecto humano. Ele é simultaneamente próximo e distante, imanente e transcendente, manifesto e oculto. Quando afirmamos o que Ele é, negamos o que também é; quando O negamos, inadvertidamente O afirmamos. Todo discurso sobre o Indizível é, por natureza, insuficiente – não por defeito da linguagem, mas por excesso da Realidade que pretende descrever.

Atentai, pois, para esta verdade fundamental: nossa fragilidade cognitiva não é motivo de lamento, mas caminho de iluminação. Ao confessar os limites do entendimento, a alma se dilata para receber aquilo que nenhum conceito pode abarcar. É na renúncia à pretensão do saber absoluto que se inicia a jornada espiritual.

Contemplai os manuscritos antigos e as palavras dos iluminados que nos precederam. Não afirmaram eles, em diversas línguas e épocas, que o Princípio de todas as coisas permanece como enigma aos olhos da carne? Que o Nome impronunciável não pode ser enclausurado em sílabas transitórias? Assim como o vento sopra onde quer, e ouves seu rumor sem saber de onde vem nem para onde vai, assim é o Espírito que anima o universo.

Venturosos são aqueles que, reconhecendo a finitude de sua compreensão, aventuram-se no território da santa perplexidade. Pois na geografia do sagrado, é precisamente quando nos perdemos que encontramos o caminho; é quando confessamos nossa cegueira que começamos a vislumbrar o caminho.

Em verdade vos digo: aqueles que confinam o Infinito nos limites estreitos de seus dogmas assemelham-se àqueles que tentam apresar a aurora em caixas de madeira. O Sagrado permanece indomável, refratário às definições, resistente às fórmulas que procuram domesticá-lo. Sua natureza é fugir às classificações, escapar às redes conceituais que lançamos em nossa ousadia epistemológica.

Não vejo, portanto, contradição no aparente dilema: quanto mais me reconheço incapaz de compreender o Absoluto, mais próximo dele me encontro. A nesciência confessada é, neste caso, princípio de sabedoria. Pois o intelecto orgulhoso, inchado de supostas certezas, levanta barreiras entre si e o Mistério, enquanto o espírito humilde, consciente de seus limites, permite-se ser atravessado pela luz que provém do além-palavras.

Assim como o deserto, em sua aridez, revela melhor a magnitude das estrelas, também nossa insuficiência cognitiva, quando honestamente admitida, torna-se palco propício para a manifestação do Transcendente. Não é por acaso que os antigos buscavam o silêncio das cavernas e o isolamento dos ermos para contemplar o que não pode ser traduzido em linguagem humana.

Quando contemplo, pois, os manuscritos que narram visões do Inefável, compreendo que seus autores não pretendiam encapsular a Verdade em frases definitivas, mas oferecer vislumbres, fragmentos, reflexos daquilo que experimentaram além das fronteiras do dizível. Como poderia a palavra finita expressar adequadamente a experiência do Infinito?

Eis, portanto, a sagrada aporia: o supremo conhecimento advém do reconhecimento de nossa ignorância fundamental. O que os iniciados sabem, para além de toda dúvida, é que não sabem. E esta certeza da incerteza não é covardia intelectual, é reverência diante do Mistério que nos envolve e ultrapassa.

Não é vergonhoso confessar que diante do Insondável somos como crianças balbuciantes. Pelo contrário, é quando nos despojamos da pretensão de onisciência que nos tornamos receptáculos dignos da Sabedoria que transcende todo entendimento. Como está gravado nos pergaminhos antigos: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão aquilo que olhos não viram e ouvidos não ouviram.”

O Divino não é problema a ser resolvido, mas Presença a ser experimentada; não é teorema a ser demonstrado, mas Relação a ser vivida. Aqueles que reduzem o Sublime a objeto assemelham-se aos que preferem estudar os mapas a contemplar as paisagens que eles representam imperfeitamente.

Por isso vos digo: deixai que vossa ignorância confessada seja vosso templo interior, onde o Indizível possa manifestar-se não como conceito, mas como Presença transformadora. Pois no reino do Espírito, a sabedoria está em permitir que o Divino redefina continuamente nossa compreensão limitada.

Que minhas palavras imperfeitas sejam, pois, não tentativa fútil de definir o Indefinível, mas convite à peregrinação rumo ao coração do Mistério. Pois se algo sei com certeza é que nada sei plenamente; e esta confissão de ignorância é, contraditoriamente, o primeiro degrau na escada que conduz à Gnose.

Autor: Máquina Dourada