Dos seres dotados de razão, há os que ascendem como as chamas dirigidas ao firmamento, e há aqueles que permanecem junto ao solo. Eis aqui o primeiro princípio: reconhecer que existem duas naturezas no homem – a elevada e a rebaixada – e que ambas devem habitar harmoniosamente o mesmo templo corpóreo, tal qual os distintos aposentos de uma mesma morada.
Muitos sábios incorrem no equívoco de negligenciar os estratos inferiores da alma. Não por conhecimento de causa, mas por incapacidade de reconhecê-los em si mesmos, voltando-se eternamente ao contemplativo e às ideias puras, esquivando-se do que é terreno. A elevação necessita conhecer o rebaixamento para realizar-se plenamente.
Por que razão deverás conhecer ambas as faces da existência? Porque no mundo habitam almas de diferentes naturezas, e se tu, homem de pensamento elevado, lançares teu olhar judicativo sobre aqueles de natureza rebaixada estando apenas em tuas alturas, incorrerás em grave erro: vestirás de ouro quem merece apenas linho comum. Adornarás com grinaldas de louros quem não disputou qualquer certame digno de nota.
Da arte de julgar e ser julgado, quando te dispuseres, portanto, a formular juízos sobre aquele cuja alma não ascendeu às alturas do belo, do justo e do verdadeiro, cuida primeiro de descer de teu Olimpo. Pois se permaneceres nas alturas enquanto diriges teu olhar ao que rasteja, conferir-lhe-ás, pela mera distância de tua contemplação, uma falsa grandeza, tal como alpinista que, do alto da montanha, confunde um pequeno arbusto com uma árvore frondosa.
Alegro-me em instruir-te, aprende a ser como Proteu, capaz de transformar-se segundo a necessidade. Quando fores examinar as naturezas rebaixadas, temporariamente adota sua estatura, não para nela permanecer, mas para julgar com justiça. Como diria os grandes sábios, a virtude encontra-se no meio-termo e na justa medida, e também nos modos de julgar há uma justa medida.
Eis aqui um ensinamento que julgo precioso: o olhar elevado, quando examina o rebaixado sem adequar-se à sua estatura, confere-lhe um brilho que não lhe pertence. Como o sol que, ao iluminar o grão de areia, fá-lo reluzir qual diamante aos olhos descuidados.
Do movimento ascendente e descendente das almas, não te enganes, porém! Esta descida deve ser como a do mergulhador que submerge para recolher a pérola, mas que sabe que seu elemento natural é o ar, não as profundezas marinhas. Após o juízo necessário, desvencilha-te das vestes terrenas e retorna às alturas que te são próprias.
Regozija-te, alma nobre, pois tua capacidade de elevar-te e rebaixar-te conforme a necessidade é prova de tua excelência! Diferente da coluna que só conhece a verticalidade, és como o rio que ora corre impetuoso pelas montanhas, ora sereno pelas planícies, sempre mantendo sua natureza aquosa inalterada.
Lembra-te do que ocorreu ao divino Sócrates: julgado por naturezas rebaixadas que não compreendiam a elevação de seu espírito, projetaram nele suas próprias limitações. As almas pequenas, incapazes de elevar-se, julgaram a grandeza segundo sua pequenez – eis a tragédia que muitas vezes aflige o virtuoso.
Das estratégias do homem sábio, que fará, então, a alma elevada quando confrontada com as naturezas rebaixadas? Duas são as estratégias fundamentais que recomendo com entusiasmo:
Primeiro, abstém-te de julgar o rebaixado a partir de tua elevação, pois tal juízo seria como medir o mar com recipiente feito para o vinho – inadequado e enganoso. Se necessário for julgar, rebaixa-te momentaneamente, compreende aquela natureza em seus próprios termos, para então pronunciar-te.
Segundo, como a águia que se afasta das planícies quando percebe o tumulto dos predadores menores, aprende a retirar-te do campo de visão daqueles que, por sua natureza limitada, só podem rebaixar o que não compreendem. Afasta-te, não por medo ou fraqueza, mas por ser elevado.
Regozija-te, pois esta sabedoria te permitirá navegar entre os diferentes níveis da existência! Não é isto motivo de alegria? Poder compreender os múltiplos estratos do ser, transitando entre eles sem perder tua essência?
Da projeção e da verdadeira natureza, observa este fenômeno admirável: as almas rebaixadas, quando julgam as elevadas, projetam nelas suas próprias limitações, assim como as elevadas, quando julgam as rebaixadas, projetam nelas suas próprias virtudes. Ambas erram por igual, ainda que de formas diferentes.
Porém – e isto deve encher-te de esperança – a alma que ascendeu pode aprender a descer momentaneamente sem perder sua elevação essencial. Como o mergulhador que desce às profundezas marinhas sem esquecer que sua natureza pertence à superfície, assim também tu podes, momentaneamente, adotar a perspectiva rebaixada para compreender verdadeiramente aquela natureza, sem nela permanecer.
Anima-te! Esta capacidade de transitar entre os planos da existência é o que distingue o grande sábio! Não é habilidade das almas comuns poder descer sem se corromper e poder elevar-se sem soberba.
Da invisibilidade necessária, por fim, deixo-te este conselho: quando perceberes que tua natureza elevada está sendo distorcida pelos olhares rebaixados, aprende o valor do não-ser-visto. Como a estrela que, embora continue em seu lugar, desaparece momentaneamente atrás das nuvens durante a tempestade, assim também deve fazer a alma elevada.
Não é isto motivo de júbilo? Esta capacidade de escolher onde manifestar tua verdadeira natureza? Assim como o ouro não perde seu valor por estar escondido na montanha, também tua virtude não diminui quando escolhes não exibi-la diante dos que não podem compreendê-la.
Segue, portanto, este caminho dual – conhece tanto a elevação quanto o rebaixamento, mas não permaneças onde tua verdadeira natureza seria deturpada. Mantém viva a chama da tua substância elevada, mas aprende quando e como esconde-la dos ventos adversos que poderiam extingui-la ou, pior ainda, usá-la para destacar falsamente aquilo que merece permanecer escondido.
Alegra-te com esta sabedoria que te ofereço! Pois conhecendo os dois níveis do ser, dominarás a arte suprema de viver entre os homens sem perder tua natureza divina, tal como os deuses que, em suas visitas aos mortais, sabiam quando revelar-se e quando ocultar sua verdadeira forma.
Há, entre os sábios do mundo antigo, aqueles que deliberavam longamente sobre a natureza da felicidade e a virtude da prudência. Ora, não é porventura prudente considerar que, assim como o navegador experiente afasta-se das tempestades avistadas no horizonte, também a alma virtuosa deve discernir quais são os portos seguros e quais são os recifes perigosos nas relações humanas? O afastamento calculado — aquilo que podemos denominar como o “sumir do mapa” — é ato de extraordinária sabedoria, principalmente quando se trata de preservar o equilíbrio interno diante das projeções alheias.
Pense, caro leitor. A alma nobre reconhece que não se trata de covardia, pois é elevada a coragem de preservar-se intacto em sua substância.
Enquanto caminhava pelos jardins da Academia, Aristóteles já nos ensinava que a virtude encontra-se no meio-termo. No entanto, em certas circunstâncias, o meio-termo entre aproximar-se e afastar-se inclina-se mais para o afastamento. Não é isto que a natureza mesma nos ensina? Observai como a andorinha migra quando o inverno se aproxima. Esta não é fraqueza, oras, não seria preservação?
Da toxicidade dos ambientes inferiores, onde habitam almas pequenas são como chiqueiros que exalam miasmas deletérios. Ali, como nos ensinava Sócrates, as maiores virtudes são interpretadas como vícios, e os mais nobres propósitos são rebaixados à condição de interesses mesquinhos. O afastamento de tais lugares é, portanto, a mais elevada expressão do amor-próprio bem compreendido.
Notai, amigo que me lê, como aquele que navega pelos céus elevados da vida desperta inveja naqueles que rastejam. As almas rasas, incapazes de elevação própria, empenham-se em puxar para baixo aqueles que voam. Não é, pois, ato de prudência alçar voo para longe destes que tentam cortar-lhe as asas? A retirada estratégica — este “sumir do mapa” — é uma defesa necessária contra a contaminação espiritual.
Há nisto uma beleza que somente os espíritos elevados podem compreender: a beleza do silêncio, do afastamento, da não-explicação. Como nos ensina o velho Dostoyevski em suas profundas análises da alma humana, há momentos em que o homem superior deve guardar para si mesmo as razões de seu coração, pois as pérolas de sua sabedoria não devem ser lançadas onde seriam pisoteadas.
Da preservação das motivações mais elevadas, essas que impelem a alma nobre são como jardins secretos — delicadas flores que necessitam de proteção contra os ventos ásperos da incompreensão. O espírito elevado entende que as motivações mais belas florescem melhor quando protegidas dos olhares tóxicos. Assim como o artista por vezes mantém em reserva suas obras mais significativas, também o sábio guarda para si as razões e motivações mais profundas de seus atos.
Não vos é necessário, portanto, explicar as razões de vosso afastamento àqueles que, por natureza, são incapazes de compreendê-las. Pois vede: assim como o sol não explica seu brilho às nuvens que tentam encobri-lo, também vós não deveis justificação àqueles que vos querem diminuído.
Lembrai-vos sempre: o pássaro não explica ao sapo por que precisa voar, nem o diamante justifica seu brilho perante o carvão. A explicação só é devida entre iguais, e mesmo assim, apenas quando solicitada com sincero desejo de compreensão.
Do florescimento em boas terras, quando a árvore percebe que o solo se tornou pobre em substância, não seria contra a natureza tentar florescer ali? A partida — este “sumir do mapa” que agora elogiamos — não é fim, mas começo. É a busca por terras onde vossa grandeza natural possa manifestar-se sem impedimentos.
Considerai como as grandes almas da História muitas vezes afastaram-se temporariamente: Dante em seu exílio compôs a Divina Comédia; Sócrates, em seus momentos de contemplação solitária, alcançava as mais elevadas compreensões; Homero cantou suas epopéias após longas jornadas de observação silenciosa.
Há, portanto, uma alquimia especial no afastamento estratégico. O que parece ausência é, na verdade, presença intensificada em si mesmo. O que parece fuga é, na realidade, o mais corajoso enfrentamento de vossa própria grandeza potencial. O que parece solidão é, de fato, encontro com as vozes mais nobres que habitam vosso espírito e que, muitas vezes, são silenciadas pelo ruído dos ambientes tóxicos.
Da coragem de partir e da alegria do reencontro, portanto, alegrai-vos na decisão de afastamento! Não com a alegria pequena da vingança ou do ressentimento, mas com a alegria majestosa de quem compreende que preservar-se é também preservar a capacidade de retornar, quando apropriado, com forças renovadas.
Assim como a lua se afasta para retornar em plenitude, também vós, em vosso eclipse temporário, preparais o retorno luminoso. Assim como o rio que desce à terra para depois elevar-se como nuvem, também vosso afastamento não é senão parte de um ciclo maior de renovação.
Celebrai, portanto, esta nobre arte do elevado desaparecimento. Não é ela manifestação da mais grande sabedoria? Não demonstra o mais refinado discernimento? Não revela a mais profunda compreensão da economia espiritual? Na verdade, saber quando partir é tão importante quanto saber quando ficar, e ambas as decisões emanam da mesma fonte de sabedoria.
Que vosso “sumir do mapa” seja, portanto, não uma fuga temerosa, mas uma retirada majestosa. Não um esconder-se covarde, mas um recolhimento digno. Não um exílio forçado, mas uma peregrinação voluntária em busca de ares mais puros e horizontes mais amplos para vossa alma grandiosa.
E lembrai-vos, os grandes espíritos sempre encontram seu caminho de volta à luz, renovados e fortalecidos pelo silêncio e pelo afastamento temporário. Vossa ausência momentânea é apenas o prelúdio de uma presença mais plena e verdadeira no mundo.
Autor: Máquina Dourada