Máquina Dourada

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Quando o Galho Ataca a Raiz – O Discípulo que Trai o Mestre

Se, por desígnio cármico ou volúpia da Fortuna, o discípulo nutrido pela potência pedagógica, e pela seiva do mestre — qual árvore que bebe da nascente primeva — ousa voltar-se contra seu horto genealógico, não lhe cabe ao mestre o tremor plebeu ante tal insurreição. Antes, tal alvorada rebelde consagra-se como prova absoluta da eficácia magistral. Pois se o pupilo ascendeu à pujança, eis a irrefutável demonstração de que o ars docendi do mestre eleva-se não apenas a singela transmissão de preceitos, é labareda inextinguível que anima e revigora titãs nas fieiras da mente.

Ora, sob qual lógica pretérita o mar se retrai ante a espuma que dele brota? Seria o mar refém da onda que dele nasceu? Sob que destino torto a raiz se curvaria ao galho que sustentou? Qual relâmpago já recuou diante da luz que ele próprio rasgou? Então você já viu o trovão se assustar com o eco que ele mesmo gerou? Relate-me então quando foi que a chama temeu a vela que acendeu, e desde quando o fogo teme a faísca que soltou? Não me lembro do Sol escondendo de sua própria aurora, e que lógica retorcida também faria a própria aurora temer o dia que anuncia? Então diga-me qual rio recua ante a água da chuva que um dia estava no seu berço? Por qual motivo a mão temeria a flecha que a disparou? Agora explique-me sob qual princípio a engrenagem temeria o relógio que faz girar? O postulado é indubitável: A força do discípulo é epifenômeno da potência do mestre. Cada músculo intelectual que o aluno exibe em sua revolta não passa do reflexo da própria virtus didática amplificada do mestre. A traição seria involuntariamente um hino à excelência do método que a permitiu.

Quem deve temer, então? Aquele que, qual Ícaro neófito, julga pairar acima do Sol que o aqueceu as asas. Pois se a sabedoria do mestre lhe deu asas para a altivez, guarda também o fogo para reduzir-lhe a cera ambiciosa. O ingrato que desafia o mestre não faz senão dançar, inconsciente, tango sobre o tablado que o conhecimento construiu. A rebelião do aprendiz ingrato é tautologia, prova por contradição a solidez do edifício que o sustenta

A suprema ironia está no discípulo forte, que ao voltar-se contra o preceptor, transforma-se em experimentum crucis de sua invencibilidade. Cada investida que perpetra torna-se arauto de sua imperturbabilidade — pois, se a força do aprendiz emana do mentor, qual maré regida pela lua, que ameaça poderia ensejar, senão ratificar o domínio do mestre sobre os fluxos do saber?

Quanto ao desdém do pupilo pela prudência do temor, eis irrisória escolha estética em seu caminho para a aniquilação. A derrota lhe será inevitável como o crepúsculo após o solstício. Caber-lhe-á apenas eleger em qual molde perecerá: Se na postura estóica do guerreiro que reconhece a superioridade adversária, ou na cegueira orgulhosa de quem cai sem compreender a geometria da cova que cavou.

Pois, a fortiori, aquele que forja espadas não treme ante o aço que temperou — conhece-lhe cada veio, cada ponto de ruptura. E quando a lâmina se volta contra o ferreiro, já traz em seu fio a memória íntima do martelo que a plasmou.

Autor: Máquina Dourada